//Relacionamento abusivo – Diga Não a essa romantização!

Relacionamento abusivo – Diga Não a essa romantização!

Milhares de mulheres ao redor do mundo, vem sendo agredidas por pessoas que dizem que as amam.

Segundo a ONU, 39% dos assassinatos de mulheres são cometidos por parceiros e muitas vezes em suas proprias casas, locais onde deveriam se sentir protegidas.

Sabemos das estatísticas, mas porque as mulheres se envolvem nestas relações abusivas? Para esclarecar, podemos caracterizar um relacionamento abusivo pelo excesso de poder de uma pessoa sobre a outra dentro de um relacionamento afetivo, no qual um parceiro extremamente ciumento quer controlar as atitudes e decisões do outro, tentando isolá-lo do restante do mundo.

Ao invés de apenas citarmos questões individuais e particulares destas milhares de mulheres, como se a culpa fosse apenas delas por estarem nestas relações, quero deixar de fora os aspectos como baixa auto-estima, dependência emocional, ou historico familiar de agressões e violência. Gostaria de explorar com vocês o aspecto que estamos envolvidos como sociedade, como o ar que nós respiramos, muitas vezes não nos damos conta, de quão imerso estamos numa cultura onde romantiza a violência e o abuso e fragiliza as mulheres a buscarem seus príncipes encantados que as salvem de suas miseráveis vidas _ seja trancada em castelos, enfeitiçadas por bruxas más ou viagiadas por dragões é como se as mulheres não tivessem poder, força, ou capacidade de se salvarem _ em outras palavras, é como se, sem homem ao seu lado, elas não fossem ninguém.

Por que filmes como “Os 50 tons de cinza” , ou “365”, ou “Lolita”, ou “Nove e meia semanas de amor” e muitos outros milhares de filmes onde a violencia comeca a fazer parte do normal das relacoes dos casais. Estes filmes ficaram famosos e mexem com o imaginário das pessoas, como se esses relacionamentos fossem eróticos, sensuais, “sexy”, como se fosse um tipo de amor. Porém, na vida real estes personagens existem, são pessoas abusivas, controladoras, inclusive pedofilos como no filme Lolita, onde a mulher é culpada de seduzir o homem… onde existe uma romantização na violencia destas relações.

O poder que o outro exerce para satisfazer seu desejo, não deve ser considerado romântico. Assim como ciúmes não é prova de amor, ciúmes não é romântico, nem mesmo demonstra que o outro tem medo de perder o amor. O ciúmes é narcísico, onde o que se perde é o controle do outro, esse outro que é visto apenas como um objeto de desejo.

Vocês podem achar que estou sendo radical, porém venho trabalhando com casais, principalmente mulheres que se envolvem em relacionamentos abusivos, onde o sofrimento é tão constante que quando o homem, pede desculpa, manda flores, faz algum carinho ela acredita e aceita, como se algum dia esse homem fosse realmente mudar seu comportamento, como se esse pouco de amor fosse um analgésico para a dor, onde acredita que ninguém mais vai amá-la, e o que lhe resta são migalhas de amor.

Desde criança, as meninas são incentivadas a serem bonitas, o que mais se diz a uma menina não é como ela é inteligente, ou corajosa, ou forte, mas como ela está bonita. Beleza é um estado temporário e as meninas crescem acreditando que precisam estar sempre belas para serem amadas. Sem beleza, as demais características não são apreciadas. Temos gerações de mulheres que não desenvolveram sua autoestima, porque estão sempre preocupadas em agradar os homens, ou obter o olhar do outro. Se sentem invisíveis e desprezadas se não tiverem curtidas, “likes” que reforcem sua autoestima, assim são prezas fáceis porque são dependentes emocionais, estão sempre precisando de aprovação, como se não tivessem o direito de serem amadas, precisam fazer algo para agradar as pessoas e assim merecer o amor do outro. Esse desespero emocional pode chegar ao ponto das pessoas aceitarem a se submeterem em muitas situações até desprezíveis, onde perdem seu próprio senso de si mesma, onde a anulação é tanta que perdem sua propria identidade.

Infelizmente isso também é transgeracional, são milhares de anos de cultura machista que se instalou no mundo, onde as mulheres não eram consideradas pessoas sem ter um homem ao seu lado, foi há pouquissimo tempo que a mulher deixou de ser propriedade do marido, e infelizmente os maus-tratos às crianças ainda existem… Se os pais que dizem que amam batem, e agridem durante toda a infância, é certo que haverá continuidade no casamento, a mulher deixa de apanhar do pai para apanhar do marido. Já o menino cresce achando que tem o direito bater para corrigir, e a menina acredita que se ele a ama, esse foi o jeito que aprendeu.

Não são raros as piadas sobre mulheres, como “ela gosta de apanhar”, ou o homem precisa mostrar quem manda. O machismo tóxico é algo que precisamos tratar. Os homens não podem mostrar seus sentimentos pois serão considerados homossexuais, criam os meninos com a frase “menino não chora”! Sem perceber que implicitamente estão dizendo meninos não sentem, não amam, não são humanos… Sem falar na necessidade absurda que os homens tem que mostrar que são machos, considerando a infidelidade ou os muitos casos sexuais inclusive promiscuos como sinal de masculidade.

Estamos num momento de despertar, precisamos falar de feminicídio, de relacionamentos abusivos, de masculinidade tóxica, precisamos parar de romantizar o abuso. Mais do que culpabilizar a mulher por sua baixa auto-estima, dependência emocional ou problemas individuais que possam fazer com que ela se mantenha nestas relações, existem também homens que sofrem e que merecem aprender a ter relacionamentos saudáveis.

Precisamos de educação sexual nas escolas, educar para a libertação destes esteriotipos de relacionamento, onde a mulher deve ficar em casa e o homem ser o provedor. Os homens também querem ter oportunidade de serem pais amorosos, maridos bons que cuidam de suas roupas, sabem cozinhar, e a mulher também quer oportunidade de escolher se quer ou não ter filhos, se quer ou não casar… Os esteriótipos de família antiga e tradicional são também conceitos que mantém relacionamentos tóxicos, relacões de poder de um sobre o outro, onde deveria haver amor e igualdade.

Nós profissionais, mães, mulheres, precisamos não apenas individualizar problemas, precisamos empoderar outras mulheres, precisamos ensinar os filhos homens a expressar o amor e serem gentis, ensinar a ser pessoas por inteiro, sem formar uma carapaça de durão, sem empurrar pra uma sexualidade sem sentimento. Nós precisamos lutar como uma sociedade que quer por uma basta nas trágicas relações familiares que matam mulheres, mães, e encarceram homens agressores, que também são pais e filhos, por não saberem se relacionar de forma saudável.

Quando existe um número tão grande de casos, não temos pessoas doentes mas uma sociedade adoecedora.

Denize Cenci, Mulher, Mãe Imigrante, Psicóloga – Terapeuta Sistêmica de Famílias, Casais e indivíduos.