Eu fiz a minha propria inclusão

     No meu primeiro dia de  vida, eu não fiquei no meu bercinho chorando ou implorando por comida, eu não fiquei no colo de minha mãe, apesar de ter nascido de parto normal  em um hospital pequeno numa cidade do interior, eu fui levada às pressas para um centro maior onde fiquei  na UTI e depois de certo tempo, fiz minha primeira cirurgia do coração.

     Depois veio a  segunda e a terceira cirurgia… não parou por aí não,  mas parte do meu corpo parou, minha parte esquerda. Tenho um hemiparesia, resumidamente: eu não mexo metade do corpo, pois na terceira cirurgia sofri uma isquemia cerebral resultando assim na hemiparesia da parte esquerda do corpo. E até aí okay… Se fosse por no máximo 2 anos, mas uma hemiparesia é para vida toda…

     Hoje estou com  17 anos de idade, com certeza a pior idade para lidar com isso…  É difícil se olhar no espelho e ver que parte do seu corpo está paralisado, é difícil caminhar na rua sem notar uma pessoa me encarando com um olhar de censura, um olhar que me faz sentir mal apenas por ser eu mesma, um olhar que me julga e me faz querer desistir de tudo e querer voltar no  tempo para tentar ‘consertar a vida’, e muitas vezes é difícil acordar de manhã e ter que enfrentar todos os dias esses mesmos olhares.

     As pessoas querem que você seja como elas, só que você não pode ser como elas, pois não mexe metade do corpo ou anda em uma cadeira de rodas, ou até mesmo não pode falar, ouvir ou ver.

      A sociedade ainda não entende  que ninguém é perfeito. Sério, eu já sonhei muitas vezes em ser “normal” em mexer o lado esquerdo do corpo, caminhar com perfeição, mas eu não consigo.

     Por um longo tempo em minha vida, eu quis ser “normal”, fazer o que as pessoas que tem as duas mãos e os dois pés fazem, como amarrar meu cabelo sozinha, amarrar os cadarcos do sapato, pular corda sem tropeçar, conseguir arrumar minha cama deixando as cobertas bem esticadas,  parecem coisas pequenas mas fazem diferença no nosso dia a dia. Assim como, gostaria muito  de usar salto e segurar um objeto por mais de trinta segundos na minha mão esquerda sem derrubá-lo.

     Acho que a palavra “normal” não existe de fato, na teoria sim existe, mas na prática não, pois o seu normal nunca  será o meu normal, por mais que tenhamos a mesma idade ou falamos a mesma língua.

     O fato é que todos temos uma realidade diferente e o que muitas vezes pode ser normal para mim, para você pode ser uma coisa de Júpiter. Então a normalidade e anormalidade não existem de fato, são apenas palavras inventadas por alguém para conceituar algo que tem um impacto imenso na sociedade e por mais que desejamos ao máximo seguir uma dessas palavras e descartar a outra, isso é impossível, pois ninguém é totalmente normal ou anormal.

     Na verdade, nós seres humanos temos uma ideia rasa sobre o assunto, sobre as diferenças e a normalidade, mas hoje quero falar sobre inclusão, que infelizmente ainda está bem longe de acontecer, sabia?

     Incluir alguém na sociedade ou em qualquer outro lugar, é ter a capacidade de enxergar os defeitos e qualidades dos outros, sem julgamento algum, por que afinal todos temos defeitos, visíveis ou invisíveis. Todos temos diferenças, pois todos somos seres humanos, seres imperfeitos que em algum momento da vida somos incluídos e excluídos de algum lugar: seja de escola, circulo de amigos, espaços sociais, padrões de modelos impostos pela midia, enfim… acredito que mesmo quem se considera normal se sente excluido de alguma forma.

exclusao

      Todo mundo acha que é perfeito, que não tem nenhum defeito, mas não é verdade. Os defeitos estão em todos os lugares. Então é impossível falar sobre inclusão sem falar de defeitos, pois inclusão é aceitar o próximo exatamente do jeito que ele é. No entanto, as pessoas não conseguem ver isso e não conseguem enxergar o deficiente, ou diferente sem julgar. Elas enxegam o “anormal”, o “estranho”. A sociedade enxerga o deficiente como uma pessoa “doente” de certa forma, mas não somos  doentes ( falando por todos os deficientes), não gostamos de ser tratados como incapazes, conseguimos fazer muitas coisas de forma independente, temos apenas um outro ritmo. No mais, somos pessoas iguais a todas, choramos, rimos, ficamos com raiva e sentimos… E especialmente, sentimos os olhares da sociedade, vemos os olhares de reprovação e ouvimos as “brincadeirinhas”  sem cabimento de alguns.

nos somos todos humanos

     Deficiências todos tem, seja em níveis  menores ou maiores. Alguns tem dificuldade de lidar com emoções, outros ficam super mal com qualquer coisinha…. Isso é normal, mas de certo modo, não deixam de ser defeitos que estão impregnados na sociedade, atual e antiga, e reconhecer os defeitos em si próprio é o primeiro passo para incluir qualquer um nessa enorme roda de amigos chamada sociedade.

      Nós, deficientes, queremos ter boa auto estima e não nos odiar por não andar, ouvir, mexer um lado do corpo… Não queremos olharmos no espelho e pensar “eu sou horrível”, “cara se eu não tivesse isso minha vida seria melhor”. Você realmente acha isso? Se  você não tivesse os defeitos ou a deficiência que tem, você não seria quem você é hoje!

      E agora minha sugestão para qualquer pessoa que tenha a autoestima baixa, defeitos, deficiencia ou seja diferente de alguma forma é: “Se aceite e aproveite a vida do jeito que você é!”

    Com a minha deficiência eu aprendi a não ficar pensando em como minha vida poderia ser diferente sem as minhas dificuldades. Hoje, eu vejo o meu potencial e a minha força. Eu sou a heroína da minha história, vivo intensamente, sem me preocupar com as opiniões dos outros. Apenas vivo, sonho, crio. Eu sou especial do jeito que sou, sou única e é sem dúvida alguma sou a minha própria salvação.

    Não abaixe a cabeça para o impossível, deixe que o impossível venha até você da maneira mais bonita possível, veja seu potencial e sua propria beleza. Apenas viva como desejar a sua vida porque ela é sua de qualquer jeito.

      Não deixe ninguém te impedir de fazer algo que você sonhe e não desista da sua luta… Não deixe de ser você mesmo por causa de pessoas ignorantes  e principalmente se ame, porque se você não fizer isso, quem fará?

“ Você não pode me impedir de me amar”  (Idol-BTS)

Sou Sara Bruna, tenho 17 anos e eu fiz a minha própria inclusão!

   a saraSara Bruna Cenci Dezen, catarinense, nasceu com uma cadiopatia congenita e sofreu hemiparesia a esquerda, aos 3 anos de idade, depois de muitas terapias, conseguiu caminhar e controlar, na medida do possível, a parte esquerda do corpo. Devido a falta de inclusão nas escolas faz homescholling.

Adora arte, dança e seu estilo de musica preferido é Pop Coreano, é super fã do BTS. Adora escrever, ler, e conhecer outras cutlturas.

É uma garota muito sonhadora, quer ser modelo, escritora e atriz.

 

18 comentários sobre “Eu fiz a minha propria inclusão

  1. Olá. Tenho uma filha que tem a tua idade. Porém ela usa cadeira de rodas, não fala e não tem controle de cabeça nem de tronco. Mas é uma menina feliz também. Um beijo e que Deus abençoe tua vida e te dê muita força

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá espero que sua filha seja muito feliz.
      Pretendo fazer mais textos assim, falando sobre a inuclusão, pois apesar de ser um assunto de extrema importância é pouquíssimo comentado…

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  2. Wow! Que incrível seu depoimento. Sinto mto pelo seu sofrimento e dificuldades mas longe de sentir pena eu só consigo sentir admiraçao pela sua força e coragem. Obrigada por compartilhar sua historia!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Nossa! Menina que texto incrivel, cheio de emoção e vida! Parabéns pela força de vontade, garra e determinacao. Você é linda por dentro e por fora… Nunca se esqueca disso! Vou começar meu dia inspirada por sua historia!
    Queria saber mais sobre seu homeschooling… Vc gosta? Preferiria estar na escola? Como é? Como foi sua experiência na escola tradicional?
    Beijos para voce e sua familia

    Curtido por 1 pessoa

    1. Primeiramente muito obrigada pelas belas palavras. Eu pretendo escrever um outro texto falando sobre a experiencia do homeschooling e prometo que não vai demorar muito para esse texto sair:)

      Curtido por 1 pessoa

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