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Está foto foi tirada em Londres, pois está acontecendo uma grande campanha em toda Inglaterra, chamada “Não é somente Ofensivo, é uma Ofensa!” No qual o objetivo é reduzir a discriminação e preconceito em todos os sentidos, mostrando que é crime a agressão verbal, física e online, com conteúdos de discriminação religiosa, racial ou de gênero.

Através desta campanha busca-se combater o pensamento fascista que vem crescendo em toda Europa e no mundo.

Eu gostaria de trazer uma reflexão sobre o termo fascista. Muito vem se falando em fascismo ultimamente, nunca se usou tanto essa palavra e talvez com tanta falta de noção sobre o real conceito. Por isso, acho interessante adentrarmos no processo de desenvolvimento de uma criança fascista, afinal não se torna um fascista da noite para o dia, e não é fácil criar um fascista.

Mas não é do fascismo politico que vamos falar, é do processo de se tornar um fascista, as características pessoais que precisamos desenvolver para ter uma personalidade fascista. Já dizia Foucault: todos nós temos uma fascista dentro de nós que gosta de poder, basta alimentá-lo!

Para entendermos melhor podemos pensar nas características que uma pessoa precisa para ser considerada fascista:

1- Autoritarismo radical, sem espaço para diálogo e ideais que são opostas a sua forma de pensar, geralmente faz repressão a quem se opõe de suas ideias através da força e da repressão.

2- Imposição de seus valores e ideias a força, ou repressão violenta de quem pensa diferente.

3- Noção de hierarquia social, existe uma raça melhor que a outra e isso é natural, assim raça, genero e classe social entram na ideia de que tem um modelo de raça superior, um genero superior, etc. Este modelo de pensar, entende que é natural que tenha pessoas ricas e outras muito pobres, e a noção de igualdade social está fora de questão, é natural que os fortes e ricos sobrevivam e os pobres e fracos morram, como se fosse uma escolha da natureza e não uma construção social.

4- Ideias conservadoras e patriarcais: A mulher foi feita para procriar, e ficar em casa cuidando de filhos e não para o mercado de trabalho, o homem é superior a mulher e assim deve se manter o status social da submissão da mulher.

5- Desprezo aos direitos humanos: a violência que se impõe as ideias, despreza e desvaloriza a vida, e o direito individual de ser, agir, e viver. Assim, tudo que é diferente dos padrões não é aceitável.

Como podemos então criar uma criança com essas características?

Na nossa sociedade atual é muito fácil, pois estamos vivendo uma era em que as crianças são a autoridade maior dentro de casa, elas são os pequenos imperadores. Saiba mais sobre a Sindrome da Criança de Ouro.

Quando ensinamos que tudo que a criança quer pode ser conseguido e que ela tem poder de gritar e mandar em qualquer adulto a sua volta, estamos ensinando que ela é o centro do universo. Os pais tornam-se seus servidores, empregados e obrigados e servir os desejos e caprichos infantis.

Não é raro ver os pequenos fascistas humilharem servidores, empregadas domésticas, zeladores da escola, os garçom no restaurante, inclusive eu trabalhei como professora numa escola privada e cheguei a ouvir de um aluno ” eu pago o seu salário!”. Como se pelo fato de pagar uma escola privada lhe dá direito de ser desrespeitoso e mesmo não fazer o trabalho que foi dado.

Outro ponto, eles nunca estão satisfeiros: nunca será bom o suficiente, eles irão a uma viagem que pra nós seria dos sonhos e ficarão entediados, e não irão valorizar nem o esforço dos pais de terem proporcionado este momento a eles.

A criança cresce com a ideia que ela é superior, ela é especial, e ninguém é melhor do que ela. Então começa a desenvolver o desprezo pelo o outro, a desconsideração das demais crenças ou culturas.

O “etnocentrismo”, um termo usado na antropologia, significa que minha cultura, meu conceito e minha crença está no centro de tudo, onde eu imponho ao outro a minha forma de ver, crer e agir no mundo. Por isso é muito difícil, para um do tipo fascista religioso, por exemplo, aceitar as diferentes religiões e crenças, e mesmo aceitar que existem culturas diferentes, ou estilos de vida diferentes dos padrões que acha que deve ser seguido.

Então o pequeno fascista serão aqueles “valentões” que impõe suas opiniões a força, que na escola fazem bullying porque o outro é gordo, tem alguma deficiência, porque é gay, porque é muito tímido. Esses pequenos fascistas não tiveram a possibilidade de aprender empatia, e de se colocar no lugar do outro, são de certa forma tão focados em si mesmo e em suas necessidades, que o outro só está ali para servir-lhe, ele se sente superior e como na”lei de Darwin os mais fortes sobrevivem”.

Algumas teorias afirmavam que estas crianças tinham baixa auto-estima e por isso praticavam bullying, porém outros estudos demostram que a falta de limites das crianças em casa, a falta de consideração e empatia com as necessidades alheias são as caracteristicas dos praticantes de Bullying, os valentões não se sentem mal por fazerem os outros mal, não tem remorso, ou arrependimento, é como se fossem reis e sua superioridade está acima de qualquer limite, eles podem tratar seus suditos do jeito que quiserem.

Existe bullying porque existe os pequenos fascistas, assim como existem governos fascistas, assim como existem sociedades doentias que se desumanizam e celebram a morte de pessoas que pensam, agem e vivem diferente que elas.

Existem principes que cresceram desta forma e tornaram-se grandes tiranos, reis que mandavam decaptar pessoas, ou tinham o prazer de ver a tortura.

A falta de humanidade e empatia que não foi trabalhado na educação dos filhos pode vir a desenvolver personalidades doentias, geralmente o psicopata está ligados a varios outras questões além da educação, mas a falta de empatia, a imposição de suas ideias pela força (quando criança impõe seus desejos por gritos e esperneios), e até a sensação de prazer ao ver o outro sentir dor, humilhação são características de uma personalidade psicopata.

São crianças que crescem superprotegidas, que não aprendem regras e limites, e que geralmente quebram regras sociais sem nenhuma consequencia ou punição. Estes são os futuros cidadões que irão desrespeitar desde uma placa de transito até uma lei que mais do que infração será considerado crime. São aqueles que não conseguem trabalho porque eles querem mandar mais que o chefe, ou que na posição de chefe podem agir humilhando seus empregados.

Por mais que amamos nossos filhos, precisamos ter em mente os valores que queremos passar, a cooperação mais importante do que a competição, a valorização do ser mais importante do que o ter, o colocar-se no lugar do outro como uma pratica diária, ensinando nossos filhos a ser gratos pelo que recebem, ensinar o não, que eles não podem receber e satisfazer todos os seus desejos, que existem regras, limites, e normas a ser seguida, e que quem manda na casa é o pai e a mãe.

Não, não é através da violencia que ensinamos isso. Ensinar humildade e empatia, requer tempo, conversa, dialogo, requer ensinar frustração (não dar tudo o que eles querem e deixar que aprendam a se frustrarem). Precisamos ensinar nossos filhos a controlar suas emoções e comportamentos, de uma forma adequada, pois se batermos neles eles aprenderam a bater. Se ensinamos o respeito, respeitamos suas ideias e até aceitamos sugestões em alguns momentos. No entanto, eles precisam saber que numa casa tem hierarquia, quem decide no final é o pai e a mãe. Eles precisam aprender responsabilidade e que quem limpa a sujeira que eles fazem deve ser eles mesmos e não empregados.

Nos como pais precisamos sim demostrar nosso amor, e fazer com que os nossos filhos tenham empatia e compaixão pelos outros. Ensinar o cuidado e repeito com o próximo é fundamental muito mais que matemática e física, como também é essencial colocar os limites de forma que eles aprendam a regular seu comportamento e lidar melhor com suas emoções.

Você pode ler mais sobre as técnicas para ensinar e lidar com comportamentos de filhos clicando aqui.

Ao meu ver estamos num momento em que precisamos humanizar nossos filhos para viver em paz, com amor e respeito as diferenças, com abertura ao dialogo. É urgente ensinarmos a ter menos ego – menos eu e mais nós – o egoismo (meu eu no centro de tudo) é uma das grandes causas da desumanização dos nossos filhos.

Assim como qualquer criança, uma fascista não nasce com ódio, ou preconceito ele é moldado e educado desta maneira. Precisamos urgentemente educar para a paz (veja aqui um texto sobre Educação para paz) , educar para a humanidade, mostrar que servir é melhor que ser servido, pois todos temos um trabalho neste mundo, a missão de fazer um mundo melhor, não para nós nem para nossos interesses, mas para as futuras gerações.

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