Faz cinco anos que moro em Londres, aqui o sistema de saúde funciona da seguinte maneira: atendimento básico gratuito a todos que estão legalizados no país. Querer um tratamento diferenciado requer muita grana e nem sempre é compensador, uma vez que todos os médicos devem ser ‘credenciados’ pelo sistema público, mesmo que atendam no sistema privado. Confesso que, de início, estranhei bastante, mas, ao longo dos anos e do uso do NHS (National Health Service), aprendi a, não só gostar, como realmente amá-lo, com suas qualidades e seus defeitos, como tudo na vida.

Aqui, quando se descobre que está grávida, devemos ir ao GP (General Practicer – o famoso posto de saúde). Lá o médico afere a pressão e pergunta quando foi a última menstruação. Calcula e diz com quantas semanas de gravidez você está. Pergunta se tem hospital da preferência e diz que o hospital entrará em contato para a primeira consulta por volta da 10º semana de gestação.

A primeira consulta é uma anamnese, histórico de doença na sua família, gestações anteriores, histórico de doenças na família do pai do bebê, aferir pressão, exame de sangue, urina, e pesar a gestante – o peso da gestante aqui só é repetido e controlado em caso de obesidade ou diabete gestacional.

A segunda consulta é a ultrasonografia translucência nucal, que acompanha outro exame de sangue e de urina.

E assim vai.

O hospital só começa a tratar a gestante como grávida após o resultado desta ultrassonografia. Antes disso, a perda gestacional  é muito comum (entre 15 e 20%) por diversos motivos, que, por aqui, só investigam após a quarta perda. No Brasil, os números são os mesmos, mas o assunto é de certa forma, um tabu, que ninguém tem noção real dos números.

E o tempo passa, a barriga cresce, as consultas acontecem…

Aqui, caso não tenha risco nenhum, o parto é normal (ok, se a grávida quiser fazer cesariana ela tem direito de pedir, mas tem que estar pronta pra comprar uma grande briga).

No meu caso, como tenho a cirurgia da coluna, não posso tomar anestesia para o parto normal, porém quero tentar fazê-lo. Tive uma consulta com o anestesista por conta disso, que me explicou tudo – o uso do gás para aliviar a dor e até uma possível evolução para a cesariana, caso eu não suportasse a dor.

O Plano de Parto, aí no Brasil, é uma carta onde você relaciona tudo que gostaria que acontecesse ou não no seu parto. É mais que um documento, é uma forma de você entrar em contato com os procedimentos, normalmente, relacionados com o parto e o nascimento, dialogando com a equipe que irá te assistir. Aqui em UK, toda gestante ganha uma pasta “Maternity Folder”, onde todas as consultas e exames ficam fichados ali. Além disso, há uma cópia nos hospitais – sim, todo seu histórico médico pode ser visto em qualquer hospital através da sua data de nascimento e nome completo. Nessa pasta, tem uma página inteira para você definir com a equipe o Plano de Parto e isso, geralmente, é feito entre a semana 31 e 36 da gestação. Nessas semanas, os exames mais importantes já foram feitos e a equipe tem uma ideia melhor de como será o parto, embora cada parto seja de um jeito. 

Tenho uma amiga que é midwife e ela falou que era melhor deixar o plano de parto em aberto – fazê-lo, mas não restringir muito, pois imprevistos acontecem. Acho importante fazer um Plano de Parto, quando há o conhecimento do que pode acontecer, os fantasmas que podem assombrar (se vão) e, pelo menos eu, me senti mais segura para quando a hora chegar.

Com 32 semanas, eu e meu marido idealizamos o parto. Com 36 semanas, fizemos o plano de parto junto ao hospital. Aceitaram tudo, o mais humanizado possível, mesmo que acabasse em cesariana. Contato pele a pele assim que o bebê nascer, retardo do corte do cordão umbilical – aguardar parar de pulsar, vitamina K por via oral (nesse caso, serão três doses, porque é mais fraca que a injeção), banho no bebê só depois de 24 horas.

Marido feliz, eu feliz, fomos pra casa. Com 37 semanas e alguns dias, a barriga começou a baixar. Fomos ao teatro juntos (acho que por um bom tempo faremos juntos programas infantis, então, fomos ver “O Fantasma da Ópera”). Ops… fiquei entalada na cadeira. Ah! São os ossos do quadril ‘dilatando’ pra quando chegar a hora do parto. Um pouco mais cansada, bom! Pelo menos, tenho dormido melhor.

O problema começa com os comentários. Cara, são muitos… “Nossa, tá chegando a hora“, “Tá tudo pronto?”, “A mala do hospital tá pronta?“, “Você deve estar ansiosa“, “Tá nervosa?“, “Parto normal, é? Vai aguentar?

Então, eu tenho mania de me programar, me adiantar e não ser pega de desavisada. Com 29 semanas de gestação, o quarto dela estava pronto. Com 30 semanas, a mala da maternidade estava pronta. Com 36 semanas, o plano de parto aprovado no hospital. O que fazer agora? Desfrutar dos últimos momentos em que seremos apenas dois, um casal apaixonado prestes a mudar as vidas pra sempre. Sair pra jantar, ir ao teatro, cinema, dormir sem ter hora pra acordar. Ficar junto. E continuar a viver a vida. Eu tenho aula segundas-feiras à noite; tenho compromisso terças-feiras às 5am; tenho compromisso também às sextas-feiras à noite. Não parei nada disso, nem pretendo parar até o dia de ir para o hospital.

De tanto as pessoas falarem me bate uma culpa (culpa de mãe começa antes dos filhos nascerem). Será que eu deveria mesmo estar ansiosa? Deveria estar nervosa? Pois eu não consigo, eu estou plena, estou feliz, estou segura.

(Post escrito com 37 semanas de gravidez)