Adoção: um processo de amor

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A Adoção é ainda um tabu a ser superado, e por isso gostaria de abordar, os preconceitos sociais em relação a adoção. Alguns pais tem vergonha de falar que adotaram, alguns filhos tem vergonha de dizer que são adotados e isso tem haver com muitas ideias erradas de maternidade, parentalidade e vínculo de filiação.

Antes de uma criança conhecer a palavra mãe ou pai, ela reconhece a função que cada um deles tem na relação com ela, e é assim que os perfilha como sendo Os Seus Pais.  A essa ligação entre os pais e os filhos chamamos de filiação. Em outras palavras, quer dizer que é  preciso que uma criança se sinta fazendo parte dos pais para ser filha deles. Logo, não há filhos naturais nem filhos adotados, há somente filhos.”        Eduardo Sá

Nesta frase, podemos entender que não importa ser pai biologico ou adotivo, o processo de vinculação  de filiação precisa acontecer emocionalmente e não é um processo biológico.

São muitos os preconceitos que atrapalham o processo de adoção e quero abordar um pouco mais:

Historicamente, adoção era visto como uma caridade, onde  a familia “pegava pra criar”, de forma ilegal, a família não acolhia como parte integral e geralmente a criança crescia como criada da casa, “um tipo de empregada com dívida eterna por ter sido criada pela família”. Entende-se isso como uma forma escravidão emocional, o que não é mais permitido e por isso é tão  importante o processo legal da adoção.

A adoção é um processo de amor, e este amor ajuda a curar as feridas do passado, de pais que não puderam ter filhos e de filhos que sofreram e não tiveram pais. A adoção é a prova real de que o amor não tem barreiras, não tem cor, não tem idade, tem apenas a disponibilidade de amar.

Outro preconceito é em relação a hereditariedade, ou seja a ideia de que as crianças vão carregar hereditariamente os genes de um genitor que foi violento ou abusador por exemplo, isso não é verdade, uma coisa é trazer nos meus genes que posso ter diabetes ou doenças biológicas hereditárias  da qual nem os filhos biológicos estão livres podem os genes podem vir até da terceira geração, outra coisa é o medo de trazer problemas emocionais genéticos. Essa noção erronea de que filho adotado “vai dar problema”, é a falta de entendimento de que o problema acontece devido a educação, por isso filhos biológicos também dão problemas tanto quanto adotivos, filhos biológicos também se desviam do caminho, usam drogas e etc.

Outro tópico que precisa ser entendido é a respeito da irreversibilidade dos traumas, claro que os traumas de infância são profundamente marcantes, também podem auxiliar a formar apegos inseguros ou evitativos que significa que a criança demora a confiar novamente em alguém que lhe dia que ama, pois sofreu dores  justamente por quem deveria cuidar e proteger. Mas os traumas podem ser tratados em terapia e nada melhor do que o amor de uma família para ajudar as crianças e pais a superarem suas dores.

Outra questão são pessoas que acabam ficando idosas e acham que a adoção é uma forma de ter alguém para cuidar deles na velhice, ou seja a ideia de que a criança deve suprir a necessidade dos pais, essa ideia também está presente em pais com filhos biológicos. E por isso existe sim um processo de avaliação psicólogica para que os pais que adotam os filhos possam estar emocionalmente disponíveis. São muitas as dores que os pais podem ter ao buscar a adoção, e as vezes, a perda de um filho na infância, precisa ser primeiro curada para que o filho adotado não seja apenas um substituto daquela dor.

Muitas vezes as famílias que buscam a adoção restrigem tanto os critérios, principalmente porque elas gostariam de adotar uma criança que seja parecida com a família, ou que seja ainda bebê e por isso podem demorar anos e anos para conseguir adotar.

Para ter noção existem mais de 47 mil crianças em abrigos que foram retiradas de pais por diversas situações como: abuso, negligencia, violencia e maus-tratos, abandono, entre outros. No entanto o processo burocratico no Brasil é tão lento que demora anos para estas crianças estarem aptas para adoção. Enquanto isso existem 33 mil casais aptos para adotar crianças que esperam anos e anos para poder amar e cuidar destas crianças.

Porém a maioria dos casais gostaria de adotar crianças pequenas, ainda bebês, de preferencia antes do primeiro ou segundo ano de vida, o que torna a adoção muito dificil, ainda mais quando os pais colocam como criterio de adoção preferencia por crianças brancas. Não podemos julgar as famílias de querem passar por todas as fases de desenvolvimento da criança de acompanhar desde que era pequeno, mas também adotar não é ir ao shopping e escolher o produto que idealizamos.

Outra questão, que gostaria de desmistificar aqui é a relação da gravidez, o processo de gravidez não se dá apenas biológicamente, mas também psicologicamente. Acredito que pra quem quer ser mãe e passar por toda essa fase é uma parte que dói muito não poder passar pela gravidez. No entanto, os pais que adotam tem também uma gravidez psicológica, sim o imáginário do bebê que está por vir se dá tanto na adoção como na gravidez. A expectativa, a espera, o preparo para a chegada, e depois a diferença do bebê real com o bebê imaginário. E neste ponto uma mãe que gesta uma filho, não espera que seu filho nasça com alguma deficiência, ou com algum problema, já os pais que adotam também se preparam mas eles sabem que seu futuro filho pode vir com algum problema e a expectativa é mais proxima a realidade.

Geralmente levamos um tempo para fazer o vínculo com a criança, muitas mães biológicas podem levar meses até conseguir se vincular com o filho, muitas mães passam por depressão pós parto, então não é porque foi gerido no ventre que as mães se tornam afetivas e vinculadas a seus bebes desde o primeiro momento. Também já vi adoções que tiveram um vínculo instantaneo, mas todas as relaçoes de pais e filhos é um processo de vínculo afetivos onde a criança reconhece nos pais o papel de cuidado e amor e os pais reconhecem nos filhos toda a potencialidade de amar.

Todos de certa forma, desejam profundamente ser adotados, ser aceitos e principalmente ser amados, os pais esperam ser aceitos tanto quanto as crianças.

Existe uma frase de Eduardo Sá: No fundo tanto os pais como estas crianças precisam de relações reparadoras que as ajudem a cicatrizar, devagarinho – as dores da esterilidade que se cruzam com as dores do abandono.” (Sá, 1996)

Ao meu ver, todos nós somos de uma forma ou outra adotados, como pais, como filhos, como amigos, companheiros, etc. Assim como também somos de uma forma ou outra abandonados e abandonantes, as vezes nas pequenas coisas, nas atenções que não damos ou não recebemos.

Acredito, que mais vínculos sanguíneos precisamos de vínculos de AMOR, de afetividade, precisamos amar e ser amados, para superar as difíceis experiências que todos passamos.

Não precisamos dar filhos aos pais,  mas sim que os pais se dêem aos seus filhos e também se dêem uns aos outros. Temos atualmente uma sociedade órfã e solitária, com relacionamentos frios e superficiais, precisamos aprender a adotar o outro como realmente é e aceita-lo verdadeiramente nas relações.

Quero ressaltar que acompanhei vários casos de pessoas que foram adotadas, algumas tiveram dificuldades de entender que a família de origem não teve condições seguras, emocionais, físicas para cuidar bem deles, outras pessoas não sentiram este impacto já que souberam desde pequenas que eram adotadas e que o mais importante é o amor que a família tinha uns pelos outros. Também conheci pais que se realizaram, que encontraram um amor tão grande que nem eles imaginavam ser possível.

Por isso precisamos falar mais sobre adoção, precisamos aprender a adotar e ser adotados. Somos uma sociedade abandonante e abandonada que precisa urgentemente de pais que nos adotem, que nos amem para que aos poucos possamos desenvolver a capacidade de amar.

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