Aborto espontâneo: o luto que a sociedade não nos permite viver

Conversando com várias mulheres, algumas amigas, outras pacientes em terapia, outras participantes de grupos sociais, percebi que são muitas as mulheres que sofrem aborto espontâneo, mas que evitam na maioria das vezes de falar sobre esse assunto. Sim o aborto é um tabu, mesmo que seja espontâneo, existe um silêncio sobre essa triste perda. Penso na forma de superar e elaborar a tristeza dessa perda.

Até hoje lembro que podia ter tido um filho ou uma filha, as vezes fico imaginando se fosse uma menina (afinal sou mãe de menino), que hoje teria quase 7 anos e como seria importante para meu filho hoje ter esse irmão ou irmã. Ainda fico triste, sim depois de 8 anos que sofri um aborto espontâneo, ainda me culpo, porque ao estudar as causas entendi que, um dos fatores de risco é o stress, banho quente e demorado também aumenta a temperatura do corpo e pode aumentar o risco, a falta de vitamina D, e mesmo ingestão de alguns alimentos especificos e ou contato com substancias toxicas, agrotóxicos, metais pesados enfim, são muitos os fatores que podem aumentar o risco de sofrer um aborto espontaneo. E na nossa cabeça ainda fica algo como se tivessemos uma certa culpa, algo que fizemos de errado, afinal tudo aconteceu dentro de nós.

Acho importante ressaltar que o aborto espontâneo é completamente diferente do aborto provocado ou aborto eletista, mas que tanto os dois casos, ainda são um tabu e tem uma enorme falta de informção da população geral sobre o assunto.

No aborto espontâneo ou perda gestacional, para as demais pessoas na sociedade, é como se nada acontecesse. A criança não existia aos olhos dos demais, ninguém pegou no colo, ninguém a alimentou, ninguém teve contato. Tudo se passa somente dentro da mãe, que sente, que alimentava, e desse pedacinho da gente que quando perdemos, não temos o direito nem mesmo de enterrar, de ter a parte que sobrou. Não nos permitem viver o luto desta perda.

É irônico que as pessoas julgam tanto o aborto provocado, mas quando temos um espontâneo não existe muita empatia, os médicos dizem para jogar o feto no lixo, ou no vaso sanitário, pense nisso, você enterraria seu filho desta forma? Fiquei chocada quando me disseram no hospital “é só sangue era apenas um embrião, pode jogar no lixo”. Pensei comigo porque fazem tanto escandalo quando o aborto é uma escolha da mulher?

No trabalho então, a mulher não tem direito a ter o resgardo, sim o resgardo é importante 45 dias de recuperação, uma perda de 12 a 20 semanas é quase um parto, sem falar no procedimento de curetagem. Nosso corpo estava mudando, utero expandiu, contraiu, encheu de hormonios, e foi em nós que tudo aconteceu, não é algo fora da gente… enfim temos no máximo 15 dias e tudo precisa voltar ao normal.

O pessoal fala a frase clichê: “foi Deus que quis assim, pensa que foi para o melhor”, mas no fundo muita coisa fica sem dizer, as mulheres geralmente não falam que sofreram aborto, porque existe um sentimento no fundo que é de culpa, como se algo que elas tivessem feito errado, comido algo, ou feito algum exercicio carregado peso demais que possa ter feito com que o feto que estava sendo gerado se perdesse. Por essas e outras que precisamos falar, precisamos mudar a forma como é encarado o aborto atualmente.

É importante entender que é considerado aborto a perda fetal antes da 20º semana, depois da 20º semana de gestação é considerado natimorto ou óbito fetal tardio. Existem ainda duas categorias de aborto espontaneo:

1- Aquele que acontece como um evento isolado. Que geralmente a causa é uma má formação cromossomica no ovulo ou no esperma. Esse aborto é muito comum, inclusive tem pesquisas do NIEHS (National Institute of Environmental Health Sciences ) revelam de 40 a 45% das gravidez terminam em aborto espontâneo.

2- A outra categoria é conhecida como abortos consecutivos ou recorrentes, são episódios em que a mulher e até mesmo o esposo precisam fazer testes para entender as causas de aborto. Geralmente a mulher precisa de tratamento para conseguir ter uma gestação completa.

Um questão importante que não tem estatisticas corretas sobre esse assunto, principalmente porque acontece aborto despercebido, quando a mulher não percebe que está gravida e acha que é apenas um episódio do ciclo mestrual com maior fluxo sanguineo. Na verdade a estimativa de perda gestacional para a inseminação ou implantacão artificial é de 70 a 75% ou seja, 1 em cada 3 mulheres abortam.

Por ser algo tão comum, acho necessario e importante revermos a forma como lidamos com o aborto esponatâneo, e também com o aborto eletivo (por escolha da mulher). No vou entrar no tópico do aborto eletivo, pois é pra outro artigo com diferentes dados.

Por tantas mulheres que sofrem essas perdas ao longo da vida, deviamos compreender melhor o aborto espontâneo e toda tristeza de um filho planejado, desejado e sentido com muito amor. Para algumas mulheres pode ser um alívio, não tinha sido planejado, e não precisou fazer nada ilegal (aborto eletivo) para continuar sua vida. Não devemos julga-la por isso, até porque tem mulheres que conheço que engravidaram tomando pilula, e mesmo com preservativo, nada é totalmente seguro. Cada pessoas tem suas metas, objetivos, e porque precisamos perder nossos sonhos, nossa carreira quando não estão preparadas ou não tem o pai, ou não é o momento certo! Mas para aquela mãe que desejava tanto engravidar, ficou toda aquela tristeza, aquele vazio, a perda do filho, do sonho, da família.

Algo que ajudaria ou pelo menos seria uma forma de fazer o luto, é poder ter algum recipiente onde pode ser colocado o pequeno embrião, pequeno pedacinho que iria virar gente! Acho que deveria ter alguma lei que pudesse ter em todos os hospitais uma caixinha pequena para que a mulher levasse embora seu filho morto, e pudesse incenerar ou enterrar, fazer seu luto e se despedir de uma parte de seu sonho de ter filho, que era vida e coração batendo.

Talvez a possibilidade de entender melhor este processo, e mesmo grupos de orientação e ajuda onde as mulheres e seus parceiros pudessem falar sobre o assunto.

Enfim, acredito que poderemos melhorar este processo, torná-lo mais humanizado, com orientações claras sobre como proceder e se cuidar após uma perda gestacional.

Quero dedicar aqui meu sentimento a todas as mulheres que passaram por isso, as que irão passar eu gostaria que elas pudessem mudar a situação, exijam que possam ter seu momento de luto, permitam-se chorar sem que as pessoas achem que esse bebê não existia, que era apenas um feto. Façam o resgardo, cuide de seu corpo para ele voltar ao normal, não é porque caminhamos, falamos, comemos que nosso corpo já está pronto pra voltar a toda ao trabalho.

Nós mulheres, já lutamos por tantas coisas que precisamos enfrentar, aprender a lidar com a perda gestacional é algo que ainda precisa ser debatido, algo tão comum devia ser ensinado na educação sexual nas escolas, aliás que possamos rever as possibilidades da mulher ser dona de seu corpo e o homem também ser responsabilizado pela gravidez indesejada.

Se você tiver mais sugestões de como lidar melhor com esse assunto por favor deixe sua opinião e comentário, é através do empoderamento feminino que muitas coisas foram consquistadas, vamos começar por nós a quebrarmos o tabu e falarmos sobre o que nos afeta e como melhorar estas situações.

Abraços

Photo by Cassi Josh on Unsplash

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