Relato de Parto – 39 semanas e muita consciência corporal

Publicado por

Durante a gravidez tive poucos medos e nenhum deles giravam em torno do parto normal (aqui na Inglaterra todos os partos são normais a menos que tenha uma complicação durante o parto normal ou uma justificativa durante a gravidez). 

Acho que o medo mais próximo do parto que eu tinha era o momento em que a bolsa iria estourar. Mas isso beirava mais o meu medo de molhar o carpete da casa ou as coisas embaixo da minha cama baú do que qualquer outra coisa.

Conversei muito com a Laura, na minha barriga, para que ela aguardasse a chegada da minha avó para nascer. Missão cumprida! Vovó chegou domingo, dia 19 de fevereiro, e Laura permanecia agitada na minha barriga. Na segunda-feira, 20 de fevereiro, completei 39 semanas e meu tampão mucoso saiu, liguei pro meu marido, que já queria ir embora do trabalho para me levar pro hospital. Expliquei, calmamente, que isso era apenas um sinal de que o grande dia de conhecer nossa filha se aproximava, mas que poderia levar alguns dias, até semanas. 

Na quarta-feira, 22 de fevereiro, fui ao hospital inventando uma super dor de cabeça (nas 2 semanas anteriores tive a pressão arterial um pouco elevada) para que monitorassem minha bebê. Isso porque uma amiga que é doula disse que valeria a pena fazer essa checagem. Fiquei algumas horas no hospital, tudo estava bem. Saímos de lá e falei pro meu marido se preparar, pois tinha certeza que voltaríamos pro hospital naquela noite, ou madrugada. Então, aproveitamos e fomos jantar fora: eu, meu marido e minha avó. Voltamos para casa e fomos dormir, cansados. Eu não consegui dormir, fiquei conversando com as meninas do Blog e disse que estava tão disposta que poderia fazer uma faxina! Do nada, senti uma fisgada nas costas que tive que acordar meu marido. Alguns minutos de massagem e nada de passar. Resolvemos levantar e ir pra sala para ver WD e comer pipoca. Quando levantei para lavar a louça, senti como se tivesse feito um pouco de xixi na calça. Olhei pro meu marido e disse: “A minha bolsa estourou!”. E ele olhou pra mim e disse: “E agora faço o quê?”! Fui pra dentro do chuveiro, pedi para que acordasse a minha avó e que os dois se arrumassem para irmos pro hospital, enquanto eu tomava um banho. Eram meia noite e quarenta, já quinta-feira, 23 de fevereiro.

Uma hora depois, estávamos no hospital, a midwife (no Brasil conhecida como enfermeira obstétrica) checou a coloração do líquido amniótico e me colocou monitorada. Fez o exame do toque: 3,5 cm de dilatação, sem contrações regulares. Talvez fosse hora de voltar pra casa e esperar contrações a cada 3 minutos com duração de 45 segundos. Mas eu estava indo ao banheiro, para fazer xixi, a cada 5 minutos (aqui eu juro não estar exagerando). As contrações irregulares não deixavam as midwives conferirem os batimentos cardíacos da Laura. Eu tentava ficar quieta e respirar ao invés de me contorcer de dor, mas era uma tarefa quase que impossível. Entra em cena a chefe das midwives. Esta olha pra mim, sem a menor delicadeza ou tato e diz: “Isto não são contrações, pois você só sente no baixo ventre. Contrações começam na região do umbigo e descem. E eu não estou feliz com o resultado dos batimentos cardíacos do bebê. Posso fazer o exame de toque?” Olhei bem para ela, cuspindo fogo, e respondi: “Você não vai fazer o exame! E não estou me recusando a fazer, chame qualquer pessoa desse hospital para isso, mas em mim você não encosta.” A chefe saiu bem estressada e voltou com um médico dizendo que eu me recusava a fazer o importante exame. Tive que explicar tudo a ele, que, gentilmente, me admitiu no hospital ao invés de me liberar para casa. 

Lá fomos nós, eu, barriga, marido e vovó, para o Delivery Room #5. 

Resolvi fazer xixi novamente e, nessa hora, saiu um pouco de sangue. Falei pro meu marido que seria bom ele chamar alguém, pois achava que o trabalho de parto iria começar logo. Ele chegou na recepção, ‘branco’, dizendo que a filha dele ia nascer naquela hora. Quando ele voltou pro quarto, junto chegaram mais 10 profissionais, entre médicos e midwives. Já eram 3:30am e resolveram checar a minha dilatação, estava com 8cm! 

Faço uma pausa para lembrar que eu não posso tomar anestesia devido a uma cirurgia na coluna, então, me ofereceram o gás, mas este me deixou hiper tonta e sem saber direito o que eu estava fazendo. Assim, desisti de usar. É que eu tenho horror de perder o domínio sobre meus atos, porres homéricos nunca fizeram parte da minha vida pelo mesmo motivo.

Entre gritos de dor e lágrimas de emoção, às 6:40am estava com dilatação total e enfim o trabalho de parto começou. Às 8am trocou a equipe do hospital e entrou em cena a pessoa que fez toda a diferença no meu parto, o obstetra, um coreano que olhou pra mim e perguntou se já nos conhecíamos. Na hora contive minha emoção respondendo apenas que sim. Eu, que apesar da dor, continuava tranquila, fiquei completamente tranquila, entregue a tudo que estava acontecendo e confiando totalmente no obstetra. Depois de alguns puxões e nada da Laura nascer, ele me falou que teríamos que fazer uma episiotomia, pois eu já estava ficando sem forças para empurrar a Laura. Perguntei se realmente havia a necessidade e ele me explicou que já estávamos, Laura e eu, há muitas horas ali, sem muita evolução. Nessa hora minha preocupação foi a anestesia, mas ele disse que poderia dar uma anestesia local. Relaxei e bola pra frente, essa menina precisava nascer. Quando foi 8:23am, Laura estava em meus braços, linda e bem! Olhei bem pro obstetra e falei: “No final de 2015, o senhor nos atendeu, pois tive uma gravidez que não evoluiu. Hoje, o senhor está nos dando nosso maior presente! Obrigada por tudo, por antes e por hoje!”

Laura nasceu, veio direto pro meu colo, depois foi a vez do pai segurá-la e emocionar-se. Depois chegou a vez da bisavó, que acompanhou o parto, parte comigo, parte do lado de fora, mas pertinho da porta e com o coração comigo.

E assim chegou ao mundo minha maior riqueza, pesando 3,080kg, cabeluda e linda, o olhar mais doce e encantador e fui eu quem fiz! 

 

 

Prós e contras do parto normal:

(Aqui deixo claro que não faço um comparativo com um parto cesariana, apenas um relato do parto normal, que foi a experiência que passei)

*O parto normal dói, dói muito. Dói quando as contrações começam e dói mais ainda quando começa a fase de expulsão. Dói loucamente no momento em que a cabeça passa no canal vaginal e sai. Depois disso, nada mais dói e já é possível esquecer a medida das dores. Hoje, eu já não posso mensurar o tamanho da dor.

*Acabou e aí tudo que você quer é ir ao banheiro tomar um banho. Vá, andando e sozinha e tudo bem, nada mais dói. 

*Não há resguardo. Desde que você se sinta bem, pode fazer tudo.

*Seus órgãos ainda estão ‘fora do lugar’, mas como tudo aconteceu na hora que tinha que acontecer, não há um desconforto, um vazio de espaço.

*A barriga não some imediatamente após o parto, você ainda fica inchada nas primeiras semanas. 

*O parto normal não tem glamour algum, há mulheres que vomitam, que defecam, que morrem de calor e arrancam toda a roupa. Não há penteado ou maquiagem que resista. 

*Dói tanto que a mulher vai pedir pra parar e fazer uma cesariana. Dói tanto que a mulher vai falar que vai morrer. 

Mas pela minha experiência, se eu voltasse no tempo, faria algumas coisas diferentes, mas com o conhecimento que eu tinha naquele momento eu faria tudo igual. 

 

IMG_7844

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.