Mães são pessoas estranhas, não somos? Passamos os dias a ensinar nossos filhos. Quem nunca se viu repetindo 200 vezes as frases “Desce dai menino, vai cair” “Já escovou os dentes?” “Esfregou atrás da orelha?” “Penteou o cabelo?”…

Todos os dias repetimos as mesmas frases, não nos importando se eles já internalizaram os comandos ou não, lá estamos nós repetindo sempre, sem ao menos dar lhes a chance de fazerem algo sem que sejam “lembrado”.

Uma das coisas mais difíceis que aprendi no Curso de Formação de Professores Montessori, sem dúvida nenhuma é a observação! Como é difícil observar sem intervir!

Muito mais do que uma pedagogia ou metodologia  de ensino, o método Montessori é uma filosofia de vida!  É preciso muito treino e auto controle para conseguir romper com  a automatização de interferir em alguma atitude que nosso filho decida tomar.

Lembro me bem quando o Vinicius tinha apenas 3 anos e meio. Morávamos em Londres na época e estávamos no nosso  parque favorito  num agradável dia em família, lembro me de como gostava de ir la para treinar as  habilidades físicas dele, é incrível como  um bom playground pode ser tão útil!

Meu marido estava incentivando e ensinando Vinicius a subir, pular, trepar, balançar de maneira segura em todos os brinquedos enquanto eu tirava fotos de tudo e todos!

Um dos brinquedos mais populares nesse parque é um escorregador bem grande no topo de um monte alto no final do playground. Vinicius estava acostumado a subir e descer sozinho, mas hoje ele resolveu fazer algo diferente: Não queria apenas subir pelo morro e descer no escorregador como sempre  o fez, como muitas crianças fazem…  Ele queria tentar algo novo, uma aventura: subir escalando o escorregador íngreme e longo!

Não queria ajuda de ninguém e estava determindado. Tentou uma, duas, tres vezes e não conseguiu. Foi quando olhou para mim e perguntou se podia tirar o tênis e a meia, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele acrescentou “Sem o tênis e a meia eu consigo mamãe!”

Não vou mentir, a primeira coisa que me veio a cabeça foi não deixa-lo tirar o tênis e meia, levei em consideração o frio, a sujeira e outras coisas, mas foi ai que decidi romper com meu pensamento e tentei ver o outro lado, respirei fundo e enxerguei alí um monte de lições preciosas a vida: determinação, auto conhecimento, estratégia, capacidade de resolver problemas, iniciativa, auto estima, confiança.

Isso tudo veio em minha cabeça em uma fração de segundo.

Quando dei por mim, já tinha dado permissão para a Aventura.

Com um tremendo sorriso e sem titubiar , ele tirou o sapato e a meia,  foi para sua aventura, e acredite: ele conseguiu! Não tenho palavras para descrever o rostinho de felicidade e orgulho com o qual ele me olhou e agradeceu com um enorme e radiante sorriso. Ele estava muito orgulhoso de si mesmo. E eu também!

Não, eu não tirei foto, pois estava feliz demais, orgulhosa demais e emocionada demais para interromper o momento com um clic de uma máquina!

Fiquei pensando muito sobre tudo que aconteceu, e como poderia ter tido diferentes desfechos se eu não o permitisse tentar, se eu o proibisse de escalar escorregador acima, se eu não o tivesse incentivado, se por algum momento eu não estivesse ali prestando atenção em cada movimento dele, se eu ou o pai dele não estivéssemos ali para juntos celebrarmos com ele a Vitoria alcançada…

Para muitos, apenas uma peraltice de parquinho, mas para mim foi uma grande lição de como sempre estamos a ensinar nossos filhos, não importa se na sala de aula, ou no parquinho, são nos pequenos momentos que encontramos as maiores oportunidades de ensinar lições de vida, não apenas para as crianças, mas principalmente para nos adultos. As vezes invertemos as prioridades e deixamos passar grandes momentos em família.

Hoje Vini tem 8 anos, talvez nem lembre mais do que aconteceu naquela tarde fria em Londres, mas eu ainda guardo na memória o quanto ele me ensinou naquela ocasião!

Que Deus nos dê cada dia mais sensibilidade para enxergar além do óbvio, para conseguirmos como mães e pais atentos darmos segurança e autonomia a nossos filhos sempre, e que sejamos capazes de confiar na capacidade deles.

 

 

 

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