Síndrome de Ulisses: o sofrimento de quem imigra

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Quando vim para Londres, com tudo organizado e planejado, jamais iria imaginar que teria uma espécie de depressão. No entanto, me deparei com a dificuldade que todos os migrantes enfrentam e acho que só quem realmente passa por isso entende, porque as pessoas que ficam no país de origem (no caso o Brasil), sempre acham que estamos super bem, que deveriamos estar felizes e temos a maior sorte do mundo!

Quem é imigrante (pessoa que deixa o país de origem para viver em outro pais ou lugar) sabe que  não é uma viagem de turismo, onde tudo nas férias é lindo e quando voltamos estamos com a vida organizada.

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Photo by Tomáš Gal on Unsplash

Começar a vida em outro país é desorientador, geralmente não conhecemos o idioma, buscar trabalho não será na área de atuação, ficar longe da família e dos que amamos, sentir que não somos mais ninguém, não temos o status que tínhamos no nosso país, não somos os profissionais que éramos lá, pois aqui estamos começando do ZERO, igual criança somos analfabetos, que precisamos aprender a se expressar e sobreviver.

Quando nós emigramos, seja por escolha ou por força das circuntâncias como pobreza, guerra, conflitos religiosos, entre outros, estamos sujeitos a vivenciar diversas situações de estresse, dificuldades de adaptação, solidão, saudades da família, da comida, do lugar, do idioma, da cultura onde crescemos, e de muitas outras coisas.

Por isso, muitas vezes as pessoas (imigrantes)  desenvolvem problemas como depressão, transtornos de ansiedade, pânico, estresse pós traumático, e outros problemas que podem estar associados a imigração, estes sintomas foram descritos e caraterizados na Síndrome de Ulisses, descrita pelo psiquiatra pesquisador Joseba Achotegui em 2000.

Vou falar um pouco desta síndrome e das perdas que envolve, que eu passei e acredito que praticamente todos os imigrantes em geral sofrem, alguns com menos intensidade outros com mais,  alguns chegam a desenvolver transtornos mentais, depressão cronica e severa devido as dificuldades de adaptação.

Chamamos de DUELO MIGRATÓRIO aquele sentimento que ficamos comparando as situações, lugares, culturas etc. é aquele desejo de ir e ficar, é uma luta interna para seguir a vida adiante no país de moradia atual, porém seu coração ainda está no passado, parte de sua vida ficou no país de origem. Como se ficássemos divididos em dois mundos, um do qual podemos planejar o futuro onde racionalmente pensamos ser melhor, mas que devidos as diferenças culturais e sociais é muitas vezes cheio de obstáculos, espinhos, e dores. Outro no entanto, estamos emocionalmente ligados ao pais de origem,  é  como se esquecêssemos as coisas ruim e olhamos para o passado, nas coisas que eram boas, as lembranças e experiências que nos construíram, sempre seremos parte do nosso país, somos considerados “brasileiros” parte de nossa identidade. Esta constante luta interior pode-se chamar de “duelo ” uma batalha entre o voltar e o ficar!

Temos várias perdas quando migramos e estas são como lutos que precisam ser elaborados:

A perda de identidade: é algo que nos afeta com um todo, não somos mais as pessoas , os profissionais, não sabemos nos relacionar no país atual, nem temos a liberdade e espontaneidade do jeito de ser, porque no país atual as relações são diferentes e nós ficamos perdidos entre quem somos e quem éramos.

A perda da linguagem: uma das mais desestruturantes sensações, não conseguir se expressar é sem dúvida frustrante e causa de sentimentos de impotência e inferioridade.

A perda da cultura:  que é nossa forma de nos relacionarmos, a comida típica do lugar, as roupas, as músicas, as brincadeiras entre outras formas de costumes e comportamentos.

A perda de status: tanto como profissão que exercíamos no pais de origem, como o respeito pela comunidade, os trabalhos onde as pessoas nos conheciam, éramos alguém e  nos país atual é como se não fossemos nada, ninguém nos conhece, ninguém sabe quem somos, somos apenas um na multidão.

A perda da família: ficar longe de quem amamos,  não ter mais o suporte de amigos e familiares é talvez uma das coisas que mais entristece. É como você morrer de uma forma, mas continuar vendo que todos seguem suas vidas, você não pode estar nas reuniões de amigos, ou nos almoços de domingo em família, nem nas festas de aniversário e casamento, e até os momentos tristes como a perda de quem amamos, tudo vai acontecendo longe de você.  Mesmo com a tecnologia atual não diminui a falta de um abraço dado pessoalmente e um ombro pra chorar, a solidão, saudade dolorida,  a falta destes contatos é um dos maiores sofrimentos que quem imigra.

A perda da Terra: parece pouca coisa,  mas não é. Ficar sem o clima do lugar onde crescemos é muito mais difícil do que parece. No meu caso, a Inglaterra é uma país sem sol, temos 8 meses de inverno, o céu geralmente cinzento nos traz uma tristeza por falta de sol, ficamos realmente deficientes da vitamina D do sol. A falta dos lugares que costumavamos frequentar, do clima, da praia, do cheiro de mato, e até a falta daquela chuva pesada  que depois vem o arco-íris.

A perda do sentimento de pertencimento: O grupo que pertenciamos, se erámos professores, ou dançarinos, ou religiosos, ou até a comunidade vizinhos etc. Todos nós fizemos parte de um grupo, é muito dificil um ser humano saudável viver sem estar em grupo. O sentimento de pertencimento, que antes tinhamos algo que nos identificava, que nos promovia na vida social, mesmo os almoços com amigos, encontros pra praticar algum esporte, etc. o Sentimento de não pertencer a lugar nenhum, causa um vazio que pode ser devastador para algumas pessoas.

Por isso é bem importante, tanto para os profissionais de saúde, como para os imigrantes que saibam reconhecer o que está se passando, não será apenas com medicação que os sintomas da Sindrome de Ulisses, podem se resolver. A maior parte das vezes é importante buscar ajuda psicoterapeutica para tratar os transtornos gerados pela mudança de vida e de país.

É fundamental tentar buscar se envolver com a comunidade, encontrar grupos de apoio e suporte que possam ajudar a superar e elaborar estas perdas. O isolamente somente irá gerar mais problemas mentais, emocionais e fisicos, podendo agravar os sintomas à situações severas de depressão, panico, desespero chegando ao suicídio.

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Photo by Fabio Neo Amato on Unsplash

Se souber de alguém que está sofrendo por ter imigrado e está com Sindrome de Ulisses, entre em contato com instituições que podem oferecer apoio psicológico, existem muitas instituições ao redor do mundo trabalhando com pessoas Latino Americanas, brasileiras, portuguesas, e que podem auxiliar e orientar.

Compartilhe este texto com alguém que seja imigrante. Você pode se increver no nosso blog e entrar em contato conosco, deixe seu comentário, envie uma mensagem, nosso projeto como Maes Brasileiras pelo Mundo é também uma forma de  auxiliar os diversos brasileiros que precisam de ajuda, levar informação e ajuda-los a se conectar.

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26 comentários

  1. Apesar de ser imigrante, tive sorte, não passei por isso. Sempre me senti bem. Vou ao Brasil com a família para passar as férias e os amigos e familiares nos visitam com frequência!

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  2. Passei por isso ! E depois de 15 anos fora voltei . Hoje depois de 1ano é meio vi que foi a melhor decisão . Aqui tenho amigos prática conversar , me sinto mais viva ,. O problema as vezes e ‘que queremos estar aqui com o dinheiro de la , . Aprendi a valorizar o que realmente me faz feliz . Agradeço a Deus por tudo que tenho . E qdo me falam
    Mais lá vc poderia comprar 5 relógios eu respondo não preciso de 5 relógios não uso nem oque tenho aqui. Ficamos escravos muitas vezes nas coisas e esquecemos oque realmente nos fazem felizes. E meu filho , lá era preso em casa , aqui tem liberdade pra brincar la fora . Nossa vida melhorou muito graças a Deus . Desejo a vcs que fiquem no lugar que realmente estejam felizes . No meu caso é aqui !🥰. Um dia abençoado a todos . J.Riani

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    1. Oi Junia obrigada por voce compartilhar sua experiencia, sim muitas pessoas entram em depressao e so melhoram quando voltam para seu pais de origem, a sindrome do imigrante mostra isso é muito mais dificil morar fora do que imaginamos! precisamos escolher um lugar que nos faz feliz!

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    2. Pra mim morar fora nao é questao de dinheiro, pelo contrario, no brasil ganhava muito mais e podia ter serviços pra tudo que quissesse. Morando fora tenho que eu mesmo fazer minhas coisas pois o salario nao da conta de todos os serviços. Porém a grande diferença que vejo é na qualidade de vida, no sentido de segurança, liberdade…poder andar com meu relogio no braço sem me preocupar com um assalto. Mas comprendo que para muitos qualidade de vida pode estar relacionado ao poder de compra, ou comodidade em ter alguem pra fazer a faxina na casa, baba para ajudar com as crianças. O bom seria juntar os dois mundos, mas como nos sabemos,nao existe paraiso. Nao ter tempo pra si, por conta de ter que fazer tudo nos mesmo, pode ser uma escravidao tb, rsrsrs…Nao conseguir se expressar da maneira como nos expressamos na nossa lingua materna e nao poder fazer a piada e ser espontanea tb faz muita falta..as vezes me sinto pisando em ovos, nao sei o que dizer, dai me calo…gerando solidao…isso ai! a vida eh uma luta, nos devemos procurar onde a balança pesa mais para cada um de nos.

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  3. Descrição perfeita dos sentimentos de ser imigrante. Estou passando pelo processo de imigração pela segunda vez, primeiro nos EUA e agora na espanha, e ao invés de ser mais fácil como imaginava, está sendo mais difícil. 5 anos fora do Brasil.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Verena ali na Espanha tem uma organização muiiitoo legal chamada Telefono dela Esperanza eles trabalham com suporte emocional e síndrome do imigrante! Está organização tem em UK Portugal e Espanha! Vale a pena buscar ajudar é super barato os cursos deles porque é uma Charity.

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  4. Ando encantada com os textos aqui …
    É gratificante compartilharmos esses sentimentos. Muitas vezes não fazemos idéia que um texto (uma história) compartilhado pode confortar o coração de tanta gente que está nessa luta de diária (saudade). Estou no meu primeiro ano hora … e não tem um dia que não enfrente essa luta de sentimentos.
    Obrigada Denize por compartilhar conosoco.
    Grande abraço

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  5. Tô passando por isso há 3 meses a Espanha sem trabalho sem família sem meus filhos a dor só aumenta n co sigo dormir,n como,sen.dinheiro viviendo c pessoas q n conheco dentro de um quarto por que aluguel de piso sozinha n posso paga,a família pedindo p volta p o Brasil porém sem dinheiro p ir…só deus sabe quantas são as noites de choro e tristeza, o fato de lá jamais ficar desempregada d aqui n ter nada por não ter documentos e humilhante…

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    1. Na espanha voce pode buscar organizacoes que trabalham com suporte emocional uma destas organizacoes se chama TELEFONO DELA ESPERANZA eles fazem um trabalho incrivel e praticamente gratuito ou por doacoes é com o objetivo real de ajudar as pessoas, eles tem cursos, psicoterapia e trabalho com imigrantes sobre isso que estao passando. Nao desista, se a vida estiver muito dificil as vezes vale a pena fazer uma avaliação e ver se é melhor voltar ao pais de origem, mas por favor busque ajuda antes de voce ter uma depressao severa!

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  6. Mesmo falando português e entendendo, não é só o idioma que dificulta a vida, se você achar que está dificil ali em portugal eu conheco uma Organização chamada Telefono dela Esperanza que dão suoprte emocional tem psicoterapia e ajuda de forma quase gratuita por ser uma charity

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  7. Obrigada pelo texto.
    Uma das coisas que passei e considero a mais difícil é a perda de algum ente querido enquanto se está distante. O luto é mais pesado. Além disso, frequentemente tive delírios sobre a realidade. Quando me dava conta de que a pessoa já havia falecido, era um baque fortíssimo novamente.

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  8. EU faço intercambio na irlanda a quase 2 anos, mas quando vim pra ca sabia q nao queria mais morar no brasil. Agora vivo constatemente Estes sintomas tomar esta decisao de q se ficar perde se voltar perde tbm é horrivel… #matandoumleaopordia ta dificil…

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