Refugiados: A dor e solidão de quem fugiu da Guerra

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Se existe um assunto que realmente me toca o coração, é a crise de refugiados. Sei que para algumas pessoas é muito simples julgar, ou reclamar da “injustiça” de deixar de servir os próprios cidadãos do país para prestar ajuda á refugiados. Alem de ser um argumento fraco, egoísta e cruel, também revela a falta de empatia com a história dessas pessoas.

Eu sempre fui apaixonada por voluntariado, mas quando me mudei para Londres em 2012 foi realmente quando me envolvi de cabeça nessa causa. Durante 4 anos trabalhei como professora de Inglês voluntaria para imigrantes, e durante um ano trabalhei com um grupo de refugiados e posso dizer que a cada semana, eles achavam que eu era a professora, mas na verdade eles não tem ideia do quanto eu aprendi com eles.

Um refugiado não é alguém que sai de seu próprio pais  para fazer turismo no primeiro mundo, não é alguém que quer tirar o emprego dos cidadãos de tal pais. A maioria sente saudade, sente falta e sonha em um dia poder voltar para casa, ou para o que sobrou dela.

Todas as quartas feiras o meu dia era dedicado a ajudar esses refugiados, na parte da manhã com tutoria de Inglês e após as aulas almoço comunitário e oficinas diversas, ou apenas um bate papo mais pessoal, e era ali nessa hora ao ouvir cada historia que meu coração ficava cheio de paixão por essas pessoas.

A maioria não sabia nada, nada mesmo de Inglês e tinham que contar com a ajuda de conterrâneos que ja estavam a mais tempo em Londres para traduzir algo.

Essas pessoas, foram forçadas a deixar suas casas e sonhos por causa da guerra, uma guerra que nem eles mesmo conseguem entender, muitos saíram ou foram resgatados no caminho enquanto fugiam do horror da morte e destruição.

Conheci uma jovem mulher, o nome dela eu não lembro mas nunca mais vou esquecer do nome de sua filha: Miracle (Milagre em Inglês) ela me mostrava orgulhosa a linda  bebê de uns 4 ou 5 meses  enquanto contava  que fugiu por conta da guerra Civil na Eritreia, ela estava com quase 9 meses de gestação e no meio da fuga tendo que suportar  frio, fome, sede, descaso, me confessou que não tinha muita esperança nem certeza se seu bebe sobreviveria, mas ao chegar em Calais na França, entrou em trabalho de parto e teve sua bebê numa tenda com ajuda de parteiras  voluntárias, e para surpresa de todos a bebê era forte e saudável, daí o nome.  Muito mais que um parto em condições extremas, o nascimento de sua filha deu lhe a certeza que tudo ficaria bem.

Uma senhora idosa que precisava de tradução para conversar disse me que chorava todas as noites com saudade de casa, não sabia quando nem se um dia voltaria, mas o desejo de seu coração era não morrer em terra estranha.

Algumas histórias pareciam ter saído de um filme ou de um livro de aventuras, em especial um homem compartilhou na aula sobre “animais” como era sua rotina de fugir de leões. Surreal, não é?  Esse mesmo senhor contou-me que ha 2 anos fora separado do irmão e mãe na fronteira fugindo da Etiópia e não tinha ideia do que possa ter acontecido com sua família.

Ainda essa semana, eu dei aulas de Inglês online para uma menina de 23 anos que me contou ser originária da Síria, estava cursando uma das mais tradicionais faculdades de seu país em Aleppo, mas foi forçada a fugir da guerra civil para tentar sobreviver em outro país, agora precisa aprender Inglês  para se comunicar e ter acesso aos mais básicos serviços. Ela teria um futuro brilhante em seu país, mas teve seu sonho interrompido pela brutalidade e violência da guerra, e hoje é uma refugiada tentando o recomeço num outro país.

Essa e muitas outras histórias, eu ouvi da boca de quem sobreviveu a uma guerra sem sentido, sobreviveram sim, mas ainda é um longo caminho até que consigam se sentir salvos, seguros e aptos a retomarem suas vidas num pais de língua e cultura tão diferente de sua realidade.

Por isso, da próxima vez que ouvir alguém reclamar sobre o apoio aos refugiados,  desafie essa pessoa a se voluntariar,  nem que seja por um  dia a ir lá pessoalmente e ouvir as historias, as dores, esperança e falta de esperança  de muitos. As vezes tudo que eles mais precisam é alguém que pare e mostre interesse em suas vidas, alguém que se importe com sua dor. Empatia e solidariedade já é um bom começo.

Somos todos irmãos e a Terra é a casa de todos os povos, pelo menos é assim que deveria ser…

Você já viu nossos outros posts sobre voluntariado ? Basta clicar aqui.

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