Memórias de Uma Carioca Suburbana

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Sou carioca com orgulho, carioca da gema, do Subúrbio, da comunidade, do complexo do Alemão.

Morei lá até meus 16 anos. Tenho boas lembranças. A favela é alegre, barulhenta, animada! Todo mundo se conhece, todo mundo brinca junto, ou pelo menos brincava…

Lembro-me das vezes que brinquei de “Vamp” (lembra aquela novela ?) eu e meus amigos com dentaduras de plástico duro que machucava a boca toda, corríamos pelas ladeiras e escadarias do morro livremente até anoitecer ou até que as mães começassem a gritar nosso nome de maneira constrangedora.

Jogos com bola na rua eram popular: de queimado, vôlei, 5 cortes, ao famoso golzinho – futebol não pode faltar, jamais!

As manhãs de domingo eram deliciosas! Sinto falta de ir na rua e ver TODO MUNDO com camisa do seu time favorito, e o assunto onde quer que você fosse, da padaria a igreja, era futebol, principalmente se fosse dia de clássico no Maraca!

Churrasco na laje é um clássico! Lembro de vários churrascos regado a pagode (culpa do meu pai) e os festivais de pipa, onde se alguém cortasse e uma pipa saísse voando pelo céu, pode apostar que teriam no mínimo 20 moleques para brigar por ela.

No Final de semana era comum os vizinhos colocarem cadeiras na calçada e ficarem ali conversando, lá pelo fim da tarde passava o doceiro e fazia a alegria da garotada vendendo bolo de aipim, cuscuz com leite condensado e bolo de milho. Também tinha uma kombi louca que sempre passava trocando garrafas de vidro por pintinhos! Até hoje não sei de onde vinha tanto pintinho e nem pra que o homem queria tantas garrafas!

O Rio era Lindo, a favela apesar de suas deficiências era um lugar legal de viver, mas de repente algo mudou.

Uma tarde de sábado, eu tinha uns 9 ou 10 anos na época, estávamos como de costume jogando queimado na rua em frente minha casa, de repente vejo um adolescente de uns 18 anos com 2 revólveres na mão vindo em nossa direção, ele dizia para todos irem para casa e não sair na rua pois “eles” iam tomar a favela. Achei estranho mas quando olhei para trás vi um exército de homens fortemente armados e senti que algo muito ruim estava para acontecer. Foi a primeira vez que vi uma arma de fogo.

Aterrorizada entrei em casa e não muito depois disso presenciei o primeiro dos muitos tiroteio da minha vida. Dai pra lá tudo mudou e para pior. O ano: 1995.

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Nos últimos 6 anos que morei no Alemão tudo que vivi são relatos infelizmente comuns e corriqueiros a qualquer carioca suburbano, até hoje:

Cápsulas de bala nas lajes das residências, muros com marca de tiro, comércio fechado por ordem do tráfico, ruas escuras, corpos no meio da rua ou embrulhados em sacos plásticos e jogado nos valões do bairro, carro dos moradores com marcas de tiro no vidro ou lataria e coisas ainda pior… Lembra do filme Tropa de Elite? Quem dera que o saco na cara e o famoso microondas fossem apenas histórias fictícias!

Infelizmente existe uma cultura que a violência impôs no Rio de Janeiro que, me arrisco dizer, só os cariocas sabem e entendem:

O carioca sabe como se deve entrar de carro numa favela a noite: faróis apagado, luz interna acesa, vidros abertos, velocidade mínima;

O carioca sabe que deve deitar no chão em caso de tiroteio, ainda que esteja dentro de casa;

O carioca sabe que em caso de tiroteio em via expressa, deve se abandonar o carro, deitar no chão e encostar a cabeça no pneu do carro.

O carioca sabe que fogos na favela significa que um novo carregamento de drogas chegou.

O carioca sabe, não por prazer, mas por instinto de sobrevivência, teve que aprender pois a violência que no final dos anos 90 era exclusiva das comunidades, desceu do morro, foi para o asfalto e se alastrou por todos os lados, inclusive a zona sul.

Meu Rio está um caos, um caos tão caótico que mudou o sentido do medo infantil.

Em uma pesquisa divulgada pelo Periódico eletrônico de Psicologia da PUC RJ em 2011 revelou que os maiores medos de crianças de 9-12 anos eram não mais o bicho papão, velho do saco e saci Pererê, mas sim de ladrão, bala perdida, caveirão (carro blindado do Batalhão especial da polícia) e tiroteio. O medo das crianças cariocas reflete o descaso e violência a qual o Rio de Janeiro está entregue.

Oro para que essa história mude, e que o Rio de Janeiro volte a ser o lugar lindo, alegre e feliz que um dia já foi. Sonho que todas as famílias que residem nas comunidades possam ser assistidas e atendidas em suas necessidades básicas. Sonho com um Rio onde as crianças possam voltar a brincar nas ruas sem medo de polícia, sem medo de bandido, onde a única preocupação seja se divertir como tem que ser.

Sonho com um Rio melhor até porque Sou carioca com orgulho, carioca da gema, do Subúrbio, da comunidade, do complexo do Alemão.

Feliz aniversario meu Rio de Janeiro!

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