Eu escolhi não Amamentar

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Quando eu engravidei do meu primeiro filho em 2010 eu morava no Brasil, morria de medo de parto normal e decidi fazer uma cesárea  eletiva por medo da dor no trabalho de parto. Tudo correu exatamente como eu havia  planejado: com 37 semanas, 2 semanas antes da data agendada, a bolsa estourou mas meu médico fez a cesárea da mesma forma.

A amamentação é um capitulo a parte, eu sempre quis amamentar, e de repente ali estava eu e o meu amado e desejado filho, mas a amamentação não era algo prazeroso, não tinha conexão, eu colocava o meu filho no  peito e doía, era desconfortável, ele sugava mas eu tinha a sensação que nada acontecia. Ele chorava, eu chorava.

Lembro que ficava com ele no peito por horas e ainda assim ele não se saciava, eu esgotada, cansada, o bebê com fome.  Uma semana se passou e quando  voltei ao hospital para retirar os pontos da cesárea,  comentei com meu médico obstetra sobre a dificuldade em amamentar, ele sugeriu que eu fosse a enfermaria falar com uma das enfermeiras. Eu fui e quando cheguei lá a única coisa que ela fez foi apertar brutalmente meu peito  para ver se tinha leite, espremeu até eu pedir que parasse e depois me disse que as vezes pode demorar semanas até o leite descer, que era para eu insistir  em não dar fórmula para o bebê.

Assim eu o fiz, mas a cada tentativa eu me frustrava mais, foi aí que pedi ajuda as mulheres que eu conhecia e ouvi e tentei de tudo: comi muita canjica branca, bebi muita cerveja preta, usei bombinha manual, concha no sutiã e nada resolvia. Meu filho continuava chorando com fome, eu colocava ele no peito, ele sugava e me machucava até adormecer de cansaço, mas eu tinha a certeza de que ele não estava sendo alimentado.

A hora da amamentação era um pesadelo para mim, havia se tornado sinônimo de dor e frustração, com um toque de vergonha e sensação de fracasso por não conseguir fazer algo tão natural!

Quando eu conversava com alguém sobre isso, ouvia coisas do tipo “você está estressada”, “está fazendo errado” “Como assim você não consegue?” ” É tão simples”, “é frescura sua!” Eu sei que todas essas mulheres tentaram na melhor das intenções me ajudar, mas só  fizeram me sentir ainda pior. Na minha cabeça eu não entendia o por quê de eu não conseguir amamentar. Eu chorava todas as vezes que colocava meu filho no peito, e eu sabia que não era para ser daquele jeito.

Um mês se passou e quando levei meu bebê no pediatra para a revisão de 1 mês, ele havia perdido um quilo de seu peso. O pediatra ficou muito preocupado,  é normal perder peso desde que nasce, mas 1 kg já era perigoso demais. Quando eu contei sobre toda a dificuldade que estávamos tendo na amamentação ele disse que era para entrar imediatamente com fórmula, e se em uma semana ele não parasse de perder peso, teríamos que interna-lo. O meu mundo desabou, não contava com a ideia de dar fórmula para meu filho, queria amamenta-lo, mas não podia arriscar mais.

Quando chegamos em casa, preparei a mamadeira conforme as instruções médicas e dei para meu filho. Ele mamou tudo e eu me lembro até hoje a carinha de satisfação  quando ele terminou, pela primeira vez ele estava saciado! Todo o choro do primeiro mês, era fome por não conseguir mamar no meu peito. Ele ganhou peso e começou a crescer conforme o esperado e eu segui com a alimentação dele exclusivamente com formula.

Quando eu saía com ele sempre ouvia uma piada aqui ou ali de outras mães, coisas do tipo “ah assim é fácil ter filho” “Mamadeira é super conveniente para você não é? “Deixa de desculpa, todo mundo consegue amamentar!” Esse tipo de comentário me machucava pois eu realmente queria ter amamentado, o que me confortava era saber que  pelo menos meu filho estava ganhando peso e era uma criança saudável.

Seis anos se passaram e eu, agora morando na Inglaterra engravidei novamente. A única certeza que eu tinha era que não queria ter uma cesárea eletiva, pois morando no exterior minha ajuda seria restrita, ainda com uma criança para cuidar, um recém nascido e as tarefas normais do dia a dia, tudo que eu não precisava era de um resguardo de uma cirurgia desnecessária.  Me preparei muito para o parto, busquei informações que dissiparam todo o medo, ganhei confiança e segurança do que era melhor para mim, e tive minha filha em casa do jeito que queria, num parto humanizado e sem nenhuma intervenção médica. Contei essa história aqui.

Dai o fantasma da amamentação voltou a me assombrar: tentativas frustrantes, ela não acertava a pega, eu não tinha bico suficiente, mas eu tinha uma rede de apoio de mulheres fortes e guerreiras que me apoiavam e me incentivavam a permanecer, uma amiga querida veio de outra cidade com a filha recém nascida para me ensinar as posições, a pega, me ensinou a usar bomba elétrica,  nunca vou esquecer o que ela fez por mim e por minha filha!

Só que algo estava diferente dentro de mim, eu não queria e não estava disposta a passar por tudo aquilo novamente, na minha cabeça eu já tinha um plano B, que era dar formula, não estava disposta a deixar minha bebê sofrer de fome como aconteceu com o Vinicius anos antes. Então eu tentava, mas quando não conseguia, dava a formula para ela, para garantir que ela estivesse alimentada. Eu tinha vergonha de parecer uma mãe má ou desleixada, eu tinha medo de assumir a amamentação por formula.

Foi então que com uns 10 dias eu recebi a visita de duas doulas muito queridas  Ana e Priscilla que me orientaram e me ajudaram durante a gravidez e trabalho de parto, a Ana  é especialista em amamentação. Elas conversaram comigo, me orientaram, ofereceram todo o suporte emocional e prático que alguém pode ter, mas em um determinado momento da conversa uma delas me perguntou : “o que é que você quer fazer?”

Eu gelei. Eu sabia o que queria, mas tinha medo de verbalizar e ser julgada, de ouvir sermões, de ser excluída do grupo imaginário de boa mães. Quase que num sussurro eu disse “Eu não quero amamentar” e desabei em prantos.  A Ana me abraçou e eu nunca vou esquecer o conforto daquele abraço, foi libertador! Ao invés de julgamento e preconceito elas me ofereceram acolhimento, empatia e compreensão. Deus sabe como eu precisava daquilo! Eu precisava aceitar que eu não estava disposta a sofrer por algo que já tinha sido tão doloroso no passado, eu precisava me ouvir dizer que eu não queria amamentar, mas mais do que tudo eu precisava de alguém para me dizer que estava tudo bem, que eu não seria mais ou menos mãe por  não amamentar. Aquele abraço desfez todo medo e me deu segurança para aceitar minha decisão sem medo de julgamentos. Serei eternamente grata pelo acolhimento que tive por parte da Ana e da Priscilla, duas profissionais maravilhosas, mas acima de tudo mulheres amigas que se colocam no lugar da outra e respeitam suas decisões.  Toda mulher precisa de uma rede de apoio assim!

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Eu escolhi não amamentar a Rebeca e estava satisfeita por ter tomado a decisão que eu achei que era melhor no momento.  Sou contra amamentação? NUNCA!  A amamentação é importante para o bebê, é um momento de intimidade máxima entre mãe e filho, é lindo, é natural, mas não se engane não é fácil para todo mundo.

Durante minha gravidez eu me preparei muito para o parto, foquei muito em buscar informações sobre parto natural, humanizado, meus direito de escolha, tudo isso funcionou muito bem. Eu estava preparada para as mais diversas situações e imprevistos que pudessem surgir. Da próxima vez sem duvida alguma farei isso com relação a amamentação.

O objetivo desse texto não é de forma alguma ir contra a Amamentação, e sim relatar minha experiência pessoal da importância de aceitar e assumir  uma decisão que julguei ser a certa naquele momento específico, e mais do que isso, de exaltar o poder que a compreensão e o acolhimento faz na vida de alguém.

Todas juntas por um mundo com mais empatia e menos julgamento!

Para conhecer mais do trabalho da Ana e Priscilla é só clicar nos links abaixo:

Priscilla Ferreira https://doula.org.uk/doula/priscilla-ferreira/

Ana Cardetas https://doula.org.uk/doula/ana-cardetas/

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