É bem provável que você já tenha ouvido falar sobre ritalina. Nos últimos anos ela se tornou bem conhecida sobretudo no meio da Educação entre professores e pais de crianças em idade escolar.

Segundo o Wikipedia, Ritalina “é uma substância química utilizada como fármaco, estimulante leve do sistema nervoso central, com mecanismo de ação ainda não bem elucidado, estruturalmente relacionado com as anfetaminas”.

Sua popularidade deve-se ao uso no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Não tenho pretensão de fazer um review ou estudo aprofundado sobre tal medicamento, ao contrário, o intuito desse texto é provocar o debate sobre a popularização de seu uso.

Meses atras num dos grupos de mães no facebook qual faço parte (sim, amo esses grupos) uma mãe fez uma publicação que na verdade era um pedido desesperado  de ajuda.

Ela contou que tem um filho de 11 anos que “dava” muito trabalho na escola, e a mesma o encaminhou para um psicopedagogo que por sua vez diagnosticou Transtorno do défice de atenção e Hiperatividade,  e o mesmo receitou como parte do tratamento o uso de Ritalina diariamente.

Meses se passaram e a escola começou a elogiar o comportamento do menino, e tudo parecia correr bem, até que um certo dia o menino implorou a mãe para não dar lhe mais o remédio e quando questionado a razão pela qual gostaria de interromper o tratamento,  o mesmo lhe disse que sentia que ele não era mais ele mesmo, segundo o próprio menino, parecia lhe que tudo passava em câmera lenta e sentia se um zumbi sem ter nenhum tipo de emoção, disse ainda que não tinha vontade de rir, de chorar, de brincar, de fazer nada…

A mãe por sua vez foi a escola e perguntou como estava o menino e se havia uma melhora no comportamento dele, a mesma foi informada que estavam muitos satisfeitos com o resultado, disseram ainda que o comportamento havia melhorado 100 por cento e que estava se saindo muito bem.

Aquela mãe estava sem saber o que fazer: a escola insistia em  dizer  que ele estava bem mas o próprio filho sentia se infeliz sempre que tomava o remedio…

Infelizmente a história dessa mãe é a mesma de milhares de outras mães no Brasil e no mundo, e eu me pergunto o que estamos fazendo com nossas crianças? O que eu enquanto educadora espero de meus alunos? Será que todos são iguais? Tem que ser iguais e aprender exatamente da mesma forma?

Quando eu era professora de pré escola no Brasil, lembro me de um aluno bem levado, ele não era apenas levado, era inquieto, ansioso e hiperativo. Se ele interrompia a aula e dificultava a execução do planejamento? Claro que sim! Eu e a outra professora depois de tentarmos varias abordagens sem sucesso, chegamos à conclusão que o melhor seria conversar com os pais e encaminhá-lo para o psicopedagogo.

Os pais foram super receptivos e levaram o menino que após testes foi diagnosticado TDAH e prescrito Ritalina como tratamento.

Daquele dia em diante não tínhamos mais o aluno na sala, ele perdera a identidade, o brilho nos olhos, as emoções, era realmente como um zumbi – estava ali mas estava ausente. Me lembro de ficar assustada nos primeiros dias mas decidimos esperar até que o corpo dele se acostumasse com a droga.

Semanas se passaram e nada mudou, vê lo daquele jeito era devastador, assustador, triste demais. Convocamos uma nova reunião com os pais e foi angustiante presenciar o desespero daquela mãe, pois ela sentia a mesma coisa, segundo ela mesma, parecia que o filho estava morto vivo, era doloroso demais aquilo tudo. Sugerimos então que ela parasse com a Ritalina e procurasse um terapeuta comportamental, o que prontamente o fez e começou logo em seguida várias terapias para ajudá lo a gerenciar o próprio comportamento e impulsos.

Ele passou a fazer 2 tipos de terapia: individual e em grupo, e posso te dizer que foi a melhor coisa para ele! Demorou um tempo até que ele conseguisse controlar os impulsos, mas o terapeuta deu dicas de como proceder com ele, pequenas atitudes que o ajudasse a recuperar o controle e foi um sucesso! Não tínhamos mais um robô ou zumbi na sala, tínhamos o nosso aluno de volta, uma criança como outra qualquer que às vezes fica muito agitado, horas fala demais, nada além do que uma criança!

Não quero ser imprudente e inconsequente ao dizer que ninguém precisa de Ritalina, sei que há casos e casos, da mesma forma que há diferentes tratamentos e abordagens. É importante ter o diagnóstico feito por um profissional qualificado, discutir com ele as opções viáveis de tratamento e estar sempre atento as reclamações e ou mudanças de comportamento de seu filho.

A mãe do post no grupo do Facebook estava dividida entre os sentimentos do filho e o “resultado” que satisfizesse a escola. Não conheço aquela mãe mas eu consigo me solidarizar com sua angústia e também consigo compreender o seu filho.

Espero que tenham chegado a uma conclusão menos invasiva menos agressiva, espero que tenham encontrado uma solução que permita o menino ser quem ele é, sem prejudicar lhe os estudos e a vida emocional, afinal ele não é apenas números e notas do sistema educacional, e sim uma pessoa com sentimentos e particularidades que precisam ser levadas em conta.

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