Solidariedade é coisa de criança SIM

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Morei  em Londres por 5 anos e, especialmente no meu último ano vivendo lá, nunca tinha visto um período tão conturbado como o ano de 2017: Atentados terroristas, crise na política, Brexit, instabilidade, tragédias. Realmente foi um ano bem intenso!

Se há algo que aprendi com os britânicos é que a famosa frase “Keep calm and carry on” é  muito mais do que um símbolo turístico apenas, na verdade ouso a dizer que  é a essência de cada pessoa com que convivi em 5 anos por lá. Não importa o que seja, aconteça o que acontecer, eles mantêm a calma e seguem com suas vidas, simples assim!

Eu sou apaixonada por Londres, e me emociona esse espírito de superação, coragem e bravura deles. Não, Londres não é perfeita, pode ser uma cidade muito solitária, fria, mas quando é preciso a população se desdobra, se doa, de verdade.

Na manhã do dia 14 de Junho de 2017, o país inteiro acordou com  a terrível notícia do incêndio em Grenfell Tower,  um prédio de 23 andares  em North  Kensington em Londres. Uma tragédia que matou  72 pessoas, mas o que realmente me chamou a atenção foi ver que antes mesmo do fim do dia os postos de recolhimento de doação de roupa e alimentos estavam pedindo as pessoas para pararem de doar devido a alta resposta da população.  Todos tomaram a responsabilidade para si, ainda que não fosse muito, cada um fazia um pouco, doava o que tinha.
Isso é algo que aprendi, e  que quero passar para meus filhos: ao invés de sentar e ficar chorando, lamentando, levante-se  e ajude ao próximo. Da maneira que  puder, com o que a tiver.

No dia seguinte a tragédia, eu e vini levantamos pela manhã e fomos para o local do incêndio, não tínhamos nada para oferecer aos sobreviventes, mas eu precisava fazer algo, por mim, pelo meus filhos, pelas vítimas, pela equipe de resgate, pela humanidade, pelo mundo…

Passamos numa padaria e compramos croissants e garrafas de água para levar para os bombeiros. Quando chegamos  próximo ao local, vimos caixas e caixas de água, comida, muitos alimentos, roupas e muitos voluntários,  foi quando  Vini falou: “eles já tem muita coisa, acho que não precisam de mais nada” eu disse a ele que não importa, que iríamos  fazer nossa parte de contribuir com o que tínhamos, ainda que proporcionalmente parecesse muito pouco.

A polícia não nos deixou chegar até os bombeiros,  e fomos orientados a  deixar  nossa contribuição numa igreja bem próxima que na ocasião funcionava como quartel general, Vini ficou um pouco decepcionado pois queria dar os croissants e água para os bombeiros em agradecimento a bravura e disponibilidade deles.

Quando chegamos na igreja, um dos muitos voluntários que estavam lá perguntou ao Vini o que ele trazia, quando meu filho respondeu o voluntário disse para ele: “Você é um verdadeiro herói por pensar em trazer esse lanche para os bombeiros, vou cuidar pessoalmente para que esse lanche chegue até eles porque devem estar cansados e com fome”.  Imaginem uma criança orgulhosa! Ele ficou radiante, feliz por ter contribuído.

Algumas pessoas me questionam se é prudente levar crianças a esse tipo de lugar, eu sempre respondo que cada família é quem sabe  que tipo de educação vai expor a criança, eu procuro educar meus filhos para a vida, e a vida infelizmente não é sempre linda, cheia de acontecimentos agradáveis e felizes.  Eu particularmente acho importante a criança saber que há dor, maldade,  injustiça e ingratidão no mundo, mas que isso não é desculpa para sentarmos e deixar as coisas inevitáveis acontecerem, mas pelo contrario, nós podemos ser o alento para quem precisa, podemos ser a resposta para o desespero e desesperança de alguém, e espero que ele aprenda isso desde cedo!

Naquela manhã em Grenfell Tower eu pude explicar para meu filho que acidentes acontecem, que há coisas que fogem do nosso controle,  e que sempre é possível fazer algo para ajudar o próximo, mesmo que seja  apenas levar um lanche para a equipe de resgate.

 Alí sentados numa calçada de frente para o que sobrou do prédio, pensamos nas pessoas que perderam seus pertences, eu e ele oramos pelas famílias das vítimas.  O lugar ainda estava  muito quente, o cheiro da fumaça era  forte, e cinzas voavam para todos os lados. E a cada cinza que caia do prédio eu sei que era um pedaço da vida e da história de alguém que perdera tudo na tragédia, mas fiquei grata por ter tido a oportunidade de ensinar meu filho o que é solidariedade, e isso é coisa para qualquer idade, desde o mais novo até o mais idoso.

Entendo que existem pais que preferem manter os filhos longe das tragédias e infelicidades da vida, e isso é uma escolha pessoal de cada família. Aqui em casa preferimos mostrar a realidade, sempre ensinando algo positivo, como solidariedade, empatia, amor ao próximo, compaixão. Como você faz em sua família? Conta aqui nos comentários …

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