O Mães Brasileiras Pelo Mundo entrevistou a Priscilla Ferreira, doula em Londres. Ela nos contou como é o trabalho das doulas acompanhando as famílias antes, durante e depois do parto. 

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Priscilla Ferreira, brasileira, mora em Londres desde 2008 e começou sua carreira como doula no Reino Unido quando suas clientes de massagem começaram a pedir para acompanhá-las durante seus partos. Formada em fisioterapia no Brasil (2001), estudou Gentle Birth Method com Dr. Gowri Motha em  2012, Paramanadoula course com Liliana Lammers e Michel Odent 2013, entre outros cursos feitos em Londres. 

Priscilla se especializou em doula para parto e pós parto, além de continuar o trabalho com massagens para gestante e pós parto. Ela trabalha junto coma Doula Ana Cardetas , unidas com o objetivo de apoiar e trazer informações às tentantes, gestantes e mães falantes da língua portuguesa no Reino Unido. 

Juntas, promovem workshops, reuniões de apoio em Londres  e  trabalham as necessidades de cada indivíduo/família, sem julgamentos, respeitando a caminhada e escolha de cada um. Para elas, não existem protocolos, mas seres humanos, de diversas culturas, com diferentes histórias de vida e diferentes necessidades. Elas têm verdadeira paixão pelo que fazem e se sentem abençoadas e honradas pela oportunidade de apoiar casais nesse momento tão importante das suas vidas. 

MBPM – Qual o papel da doula durante a gestação?

PRISCILLA – O trabalho da doula é literalmente dar suporte, sem impor ou julgar, ajudando a mulher e o casal na busca de informações baseadas em evidência. Como doulas, nosso papel é dar apoio emocional, ouvir e contribuir para que a mulher se sinta mais confiante e segura. Não podemos oferecer qualquer intervenção médica ou exames clínicos, pois esta parte cabe às parteiras (midwives). Nossa função principal é ouvir a mulher, entender seus medos, anseios e desejos e ajudá-la a encontrar em si mesma as ferramentas para passar por esse processo da melhor forma possível.

MBPM – Qual a diferença entre doula e midwife?

PRISCILLA – Uma midwife tem responsabilidades clínicas para com a saúde da mulher e do bebê, além do tradicional trabalho psicológico. A midwife tem uma graduação acadêmica extensa. Já a preparação de uma doula é quase toda baseada em autoconhecimento e autodesenvolvimento, além da prática da inteligência emocional e social.

MBPM – Qual a função da doula durante o parto?

PRISCILLA – A função da doula é caminhar junto com o casal, dar suporte emocional incondicionalmente e também suporte físico no alívio da dor através de técnicas holísticas. É trabalhar para que tenham uma experiência humanizada. As doulas acabam por entender de protocolos e procedimentos médicos utilizados durante o trabalho de parto, desta forma conseguem ajudar o casal a acessar as diferentes situações que podem acontecer na hora do parto para que estes consigam tomar decisões informadas, evitando violência obstétrica ou algum tipo de trauma ou depressão. Além também de oferecer continuidade na hora do parto, um rosto familiar, uma pessoa com que a mulher/casal se conecta.

MBPM – Para que o parto seja assistido e guiado por uma doula é preciso ter autorização da equipe hospitalar?

PRISCILLA – Não, a mulher aqui no Reino Unido tem direito a dois acompanhantes. Portanto, um deles pode ser uma doula.

MBPM – Já te aconteceu de duas ou mais clientes entrarem em trabalho de parto ao mesmo tempo? Como você fez?

PRISCILLA – Nunca aconteceu. Eu não aceito trabalho quando não posso oferecer 100% de garantias de que estarei no parto. Eu trabalho individualmente e em parceria – chamado de shared care, ou seja, o trabalho é compartilhado com outras duas doulas, minhas sócias no Tris Doulas. Dividimos as visitas de preparação ao parto e pós parto e ficamos disponíveis a partir da semana 37, quando a gestação é considerada “full term”, a qualquer horário do dia ou da noite. Seguimos um modelo de contrato do Doula UK, onde especificamos os serviços prestados, nossas regras de trabalho, ou qualquer outro tipo de acordo entre nós e os clientes.

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MBPM – O que é o parto humanizado?

PRISCILLA – Parto humanizado ocorre quando a mulher tem o poder de tomar suas próprias decisões, quando ela tem controle sobre o próprio parto. Quando suas opiniões e decisões são respeitadas, podendo este parto ser domiciliar, hospitalar ou cesárea. No parto humanizado, a equipe garante a segurança da mulher e do bebê, mas deixa a mulher ter o controle. Portanto, mesmo no caso de intervenções médicas, o parto pode ser humanizado, desde que a mulher seja informada e respeitada. Um exemplo no caso da cesárea seria o contato imediato da mãe com o bebê. O parto humanizado propicia o vínculo da mãe com o bebê mais rapidamente, facilita a amamentação, contribui para a redução de casos de depressão pós parto, entre outros benefícios.

MBPM – Qual a sua opinião sobre intervenções no parto vaginal, tais como episiotomia, uso de ventosa e uso de fórceps*?

PRISCILLA – Eu acho que qualquer intervenção usada de maneira necessária e correta é maravilhosa, isto porque salva vidas! Tudo aquilo que for necessário para salvar uma vida, tiver consentimento da mulher ou for opção da mulher somos a favor. As pessoas associam essas intervenções à violência obstétrica, mas isso nem sempre é assim. As pessoas sempre querem saber se preferimos fórceps ou cesárea e a resposta é sempre a mesma – o que sabemos sobre os dois? Com qual delas você se sente mais segura e porquê? O quanto você realmente quer ter um parto vaginal? E, por último, você confia na equipe escolhida para utilizar este tipo de procedimento? Portanto, não é a nossa opinião, mas sim aquilo que você entende e que vai de acordo com seus medos, sua cultura e sua história de vida. É importante explicar o que são esses objetos porque muitas mulheres desconhecem. Ventosa e fórceps são instrumentos usados para dar assistência na hora do parto. Normalmente, são usados se existir alguma preocupação com o coração do bebê, ou caso o bebê esteja em uma posição não favorável ou se a mãe estiver exausta. Episiotomia é uma incisão (corte) no períneo e na parede vaginal efetuada para  ampliar e facilitar o canal de parto e prevenir que ocorra um rasgamento irregular durante a passagem do bebê. É, geralmente, realizada com anestesia local.

MBPM – Em quais casos deve-se induzir o parto? 

PRISCILLA – Não cabe a nós, doulas, decidir quando um parto deve ou não ser induzido. Ao nosso ver, indução também é uma forma de intervenção, portanto deve ser utilizada quando existe real indicação clínica. Hoje em dia, mais de 40% dos partos no Reino Unido iniciam através de indução, então, cabe a mulher/casal saber o real motivo dessa indução para poderem tomar a melhor decisão. Cabe a nós, doulas, ajudar com informações baseadas em evidências para que se sintam seguros e preparados em aceitar ou não.

MBPM – Em quais casos deve-se optar por cesárea durante o pré natal?

PRISCILLA – Cesárea é também uma forma de intervenção, portanto, se existe indicação clínica real, ela deve ser aceita. Tendo dito isto, a cesárea se tornou opção de parto e pode ser escolhida por direito da mulher. Portanto, em qualquer momento durante o pré natal, se a mulher não se sente segura, ou se existe algum tipo de trauma em relação ao parto natural/vaginal, ela pode e tem direito de optar por uma cesárea.

MBPM – Quando um parto normal (ou uma indução) evoluem para uma cesárea, qual o papel da doula?

PRISCILLA – O que fazemos no caso de cesárea, é igual ao trabalho que fazemos para o parto normal. Isto porque não temos garantia de como vai ser o resultado nunca. A natureza é assim. Nós trabalhamos, durante as sessões de pré natal, a aceitação e o entendimento de cada etapa. Portanto se o trabalho de parto se inicia em casa e acaba em um hospital com uma cesárea nós doulas estamos ao lado dos nossos clientes dando o suporte necessário para que não haja traumas ou depressões. O choro e a frustração após um trabalho de parto intenso que acaba em uma cesárea quase sempre estão presentes. As palavras de incentivo, a continuidade do nosso trabalho neste momento são crucial para a saúde mental da mulher e ainda mais para a primeira hora após o parto. Eu particularmente tento sempre apontar o lado positivo do processo todo. Tenho muita admiração e respeito por todas as mulheres que tenho oportunidade de trabalhar e faço questão de olhar nos olhos delas e dizer o quão maravilhosas elas são, o quanto eu me orgulho da jornada delas, o quanto transformadora e positiva pode ser  a experiência, mesmo terminando com uma cesárea. O nosso trabalho não depende apenas do resultado do parto. Tenho muito orgulho de dizer que, em mais de 40 partos que já participei, apenas 5 acabaram em cesárea e, até onde me foi dito, nenhuma delas se sentiu mal ou arrependida por terem tentado, muito pelo contrário. E aí eu tenho que deixar a modéstia de lado e admitir que, em grande parte, é devido a nossa jornada, doula e família, lado a lado a cada passo, entendendo e acessando as situações de maneira segura e correta.

MBPM – Quais as principais diferenças entre o trabalho das doulas em UK e no Brasil?

PRISCILLA – Eu não posso falar muito sobre o Brasil porque nunca trabalhei por lá, porém o conceito e a definição do nosso trabalho deveria ser o mesmo. A grande diferença em relação ao sistema de saúde é que, aqui, gestação é tratada como um processo natural e apenas as mulheres com fatores de risco serão encaminhadas para o médico. Todo acompanhamento pré-natal é realizado por enfermeiras parteiras, as midwives. Aqui, a mulher tem mais autonomia e direito de escolha.

MBPM – Qual o papel da doula no pós-parto e no puerpério?

PRISCILLA – Mais uma vez o apoio emocional no pós-parto é essencial.

Antigamente, nós tínhamos uma aldeia inteira dando apoio à mulher nesse processo, mas, hoje em dia, estamos cada vez mais isolados. As famílias estão longe, são menores ou estão ocupadas. Então, a doula oferece esse apoio emocional e também prático. Ela ouve a mãe ou pai sobre suas experiências durante o parto. Sobre o processo de se tornar pai e mãe. Além de ouvir suas preocupações no que diz respeito ao bebê. Ouvimos sempre de uma forma imparcial, nunca julgando ou fazendo imposições. O papel principal de uma doula pós-parto é contribuir para que a mãe tenha uma transição o mais tranquila possível e, assim, encontrar a sua forma de maternar. Em termos práticos, nós ajudamos nas pequenas tarefas, podemos cozinhar, ajudar nos cuidados com a casa e apoiar na amamentação. Podemos ficar com o bebê, se for vontade da mãe tomar um banho relaxante, dormir ou até socializar. Importante dizer que a doula tem e deve ter uma presença calma para reassegurar a mãe. Tudo isso vai permitir que ela se recupere do parto, conecte-se com o bebê e siga seu caminho, no seu ritmo de uma forma confiante.

Você pode entrar contato com a Priscilla e a Ana acessando as paginas do Doulas UK

Priscilla Ferreira https://doula.org.uk/doula/priscilla-ferreira/

Ana Cardetas https://doula.org.uk/doula/ana-cardetas/

 

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