Toda estória e toda História tem um inicio, meio e fim. O fim poucas vezes é a morte. O fim é o oposto. O fim geralmente o início de uma vida diferente. A história das guerras não acabam com a morte de alguém, acaba com o renascimento de uma nova nação. Nação esta que aprendeu à duras penas o significado das coisas importantes da vida, como uma casa, um aquecedor no inverno, um par de sapatos e uma sopa de batata. Nação que aprendeu que a generosidade, a bondade, a união e a compaixão são atos de amor seja por um familiar, seja por um estranho. A nação também cresceu política e economicamente, seus líderes irão tomar medidas diferentes com as lições aprendidas antes e durante a guerra.

Um filme como Indiana Jones claramente explica o ciclo da vida de cada um de nós. Existe um momento em que temos que sair em busca de uma aventura, de nossos sonhos. Uma vez completos, precisamos voltar. O herói sempre retorna. E retorna com um crescimento pessoal que ele não teria conseguido se não tivesse partido em sua grande jornada.

Essa dinâmica das histórias está explicada com minúcia num livro chamado a Jornada do Escritor do Christopher Vogle. Muitos o criticam de simplificar todas as histórias do mundo e criar uma receita de bolo para roteiristas e escritores. Eu discordo dessa visão e acho que Christopher é apenas um observador da natureza humana.

Assim como passamos pela infância, adolescência, a vida adulta e a senioridade, qualquer pessoa que você conhece terá uma trajetória dessa maneira. Basta olhar em detalhes pra saber qual foi o seu momento de aventura ou de busca de um sonho, ou do que ele chama de ‘o chamado’. Não é preciso sair do país ou ir em procura do santo graal. O crescimento pessoal pode se dar dentro de sua casa, na escolha de uma universidade, na troca de um emprego, na maternidade.
O que caracteriza esse periodo é o crescimento pessoal que promove uma transformação e é de fato a recompensa de que todos buscamos.

Quando vamos morar fora do país, o medo, a excitação, as expectativas, as vivências do cotidiano como pedir informação numa outra língua por exemplo vão pouco a pouco – e às vezes de supetão- nos transformando. Nos transformamos ao ponto de nem saber à qual país pertencemos. O coração ficou pra trás, mas a cultura de ontem já não é a mesma, a identidade de quem sou hoje não é a mesma daquela antes da jornada. Os hábitos mudaram, a maneira de pensar, de limpar e de comer também.
Quando voltamos à casa numas férias tão esperadas e desejadas, já não sentimos que pertencemos àquele lugar.

Quando voltamos ao novo país, idem.

De repente, a vida nos trás casamento, filhos que são também netos. Netos esses que são mimados e amados à distância. Netos que tem avós, mas não podem correr pra eles quando a mamãe grita.

De repente, a gente olha pra vida e vê que passou 15 anos longe. Foram festas de aniversário, casamentos, doenças, copas do mundo, jogos de vôlei, separações, apresentações na escolinha, lançamentos de livros…Foram celebrações e ternuras que você tentou estar presente mas não pode.

De repente, você se dá conta de que você cresceu, que você tem em si a recompensa que sua historia de vida te deu. E agora, como em qualquer filme, livro ou história, é hora de voltar pra casa. Você anseia estar perto daqueles que realmente te amam, está na hora dos seus filhos terem avós e os avós terem netos. Agora é hora porque você aprendeu que isso é mais importante do que todo o resto.

Mas não da pra voltar. O marido não fala a minha língua, com que trabalho vamos nos sustentar, como as crianças que estudam em sistema montessoriano vão entrar na paranóia de Vestibular? Como viver na possibilidade de uma bala perdida, um assalto no trânsito, um roubo de carro e de filhos? Como? Como lidar com o fato de que não deixaria eles sairem correndo pra casa da vovó na esquina sozinhos quando a mamãe gritar com eles? Como não ter medo? Como lidar com a insegurança sabendo que uma vida segura é importante.

Não dá pra voltar, então agora é lidar com os sentimentos e emoções de quando o pai morrer, quando a mãe adoecer, quando a irmã casar, quando o sobrinho nascer. É lidar como minha mãe lida, agradecendo por ter ligação de vídeo via Wi-Fi.
Mas será que esse buraco de estar longe dos meus pais algum dia irá se fechar? Quão grande será meu arrependimento quando eles se forem?

Seriam as pessoas que não tem ambição de sair do país ou até mesmo do bairro onde moram mais sábias do que eu? Pessoas que receberam meus julgamentos como acomodadas e de mente pequena hoje peço desculpa por tanta ignorância de minha parte.

Como lidar com essa falta e como remar contra a maré? Se nosso natural é voltar, se toda historia é assim, como posso continuar remando contra?

Não há respostas. Então como tentar viver o hoje, tão longe de casa, sem adoecer?

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