O lado negativo de criar filhos no exterior

Era só mais um domingo qualquer, havíamos chegado da igreja e como na maioria dos domingos, eu fiz uma chamada de vídeo para meus pais que moram no Brasil. Há seis anos deixei o Brasil e vim morar no exterior: primeiro em Londres, agora Portugal. Nao vou ao Brasil desde 2015… Lá se vão 3 anos!

Na noite anterior enquanto tomávamos um chá, meu marido me perguntou se eu sentia falta de algo no Brasil, lembro que minha resposta foi rápida e certeira : nadinha! Não sinto falta de nada.

A videochamada com meus pais estava normal, até que eles começaram a me contar sobre o encontro de família para celebrar os 83 anos de minha avó. Falaram de como foi divertido, animado rever familiares mais distantes daqueles que a gente não vê todo os dias, contaram do famoso futebol entre primos, da foto oficial para recordação com toda família, depois só os netos, depois só os bisnetos…

Eles me contavam com muita animação e alegria tudo que vivenciaram naquele fim de semana, e eu não estava lá… Não participei das fotos oficiais nem dei aquele abraço apertado na minha amada avó.

O relato do aniversário de minha avó, por si só já havia me deixado com uma sensação estranha, que não sabia bem o que era, mas não era confortável.

Até que o assunto mudou e meus pais comentaram que já começaram a planejar as férias de final de ano no Nordeste e que meus sobrinhos estavam animados para a tão esperada viagem! Me falaram com empolgação do roteiro que farão, das atividades programadas, das praias paradisíacas que vão visitar com as crianças.

Foi quando meu filho entrou no quarto e meus pais o chamaram para conversar, perguntaram o porquê do cabelo grande, como estava os amigos, se ele está indo muito a praia – essas coisas. Meu filho só respondia sim ou não e não estava nem um pouco empolgado com a conversa. Deu uma desculpa e voltou para a sala para ver seus desenhos.

Continuei o vídeo com meus pais e quando nos despedimos e desligamos o telefone, eu fiquei pensando, assimilando tudo que conversamos, tentando entender aquele sentimento que apertava meu peito… Chorei.

Chorei pelo fato de ter perdido a comemoração do aniversário da minha avó que tanto amo, por não estar presente nas brincadeiras com meus primos e tios, e chorei mais ainda por imaginar como seria a vida e infância do meu filho crescendo junto com os primos e avós, por imaginar que meu filho não é tão empolgado com o relacionamento dos avós a quem vê uma vez a cada 2 anos.

Chorei por lembrar da minha própria infância de como curti meus avós! Lembrei das farras quando todos os primos dormiam na casa deles! Como era divertido! As viagens de férias na fazenda dos meus tios em Minas Gerais! Ahh tempo maravilhoso! Quantas lembranças!

Eu sei que cada decisão que tomamos, tem implicação direta na nossa vida e na vida de quem a gente ama, e também sei que a gente tenta sempre fazer o melhor.

Eu amo morar na Europa, amo Portugal com todas as minhas forças, mas a falta do convívio com a família me incomoda mais do que eu imaginava. Minha Rebeca tem 1 ano e meio e só conhece meus pais porque eles vieram na ocasião do parto. Ela não conhece a tia, os primos, a bisavó… Isso doi. Eu tenho doce lembranças da minha bisavó, de como ela costurava, do cabelo enorme que cultivava – da festa de comemoração de seus 100 anos!

Sei lá, tudo que eu queria era que esse oceano fosse um pouco menor ou que o Brasil fosse um lugar mais justo e seguro para que ninguém precisasse ir para outros países em busca dos serviços básico para uma vida mais digna.

E a gente segue assim: vivendo um dia após o outro, chorando a noite quando a saudade do Brasil e da familia aperta, e nas orações noturnas pede a Deus que o dia seguinte seja um dia melhor…

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Autor: Marcielly Azevedo

Mae do Vinicius e da Rebeca, esposa do Eder. Homeschooler, apaixonada por Educação Livre e Criação com Apego Ja morou no Brasil, Londres, atualmente em Portugal.

2 pensamentos

  1. Entendo cada palavra, dói, dos dois lados. Minha sobrinha de três anos fez um bolo de areia para cantar parabéns para mim nesse ano, e diz que está guardando dimdim para vir nos visitar… Minha filha se recusou nos 2 primeiros anos à aprender a língua local, agora que está com mais abertura. E vamos que vamos, afinal a vida é feita de escolhas que pagamos cada dia por mais que muitos não saibam o preço… Muito elucidativo e emotivo seu texto. Até mais.

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