Como Administrar a Raiva na Maternidade

Há cerca de 10 anos atrás eu li um livro em Inglês sobre a educação nos EUA – tenho que confessar que não me lembro o nome do livro ou do autor, mas me lembro que em um dos capítulos ele falava sobre uma pesquisa que revelou que uma alta porcentagem de homicídios que poderiam ter sido evitados se os ofensores conseguissem administrar o primeiro minuto de raiva.

Segundo o autor, os primeiros 60 segundos de raiva nos dominam, a tal ponto, que não raciocinamos e agimos por impulso. Esse minuto de raiva faz com que um marido agrida a esposa no meio de um discussão calorosa, faz alguém pegar uma faca, dar um tiro, agredir verbal ou fisicamente alguém sem mesmo pensar nas consequências desastrosas, que certamente causara arrependimento uma vez que a adrenalina baixar.

Nunca mais esqueci isso! E comecei a treinar na minha vida como administrar o primeiro minuto de raiva. O problema é que nem sempre conseguimos sucesso em nossas tentativas, e vamos ser sincero? Na maternidade temos esse “minuto” de raiva várias vezes ao dia, todos os dias!

É sobre isso que eu quero compartilhar com vocês hoje.

Pense em uma semana difícil! Agora multiplica por 2. Pois é, minha semana foi assim: Trabalho acumulado, Vinícius resfriado no início da semana e Rebeca (14 meses) com 4 dentes nascendo de uma só vez e todas os efeitos colaterais como falta de apetite, febre, coceira extrema na gengiva, boca inchada, coco acido e assaduras terríveis. Foi uma semana complicada!

Após 3 noites sem dormir, meu marido com crise de enxaqueca foi dormir no outro quarto, porque as crianças se mexem muito na cama.

Já era meia noite e parecia que em fim teríamos uma noite normal de sono, após uma semana quase sem dormir decentemente. Mas, eu estava enganada…

Rebeca dormia bem, estava dormindo profundamente, até que as 2 da manhã meu filho Vinicius (7 anos) acordou dizendo que estava com medo e queria dormir com a luz acesa.

Disse a ele que não acenderia a luz para não acordar a irmã, mas ele continuou insistindo que eu ligasse a luz. Então eu disse que fosse para a sala ou outro quarto e ficasse lá com a luz acesa. Ele insistindo. Não estava gritando, nem fazendo pirraça, so pedia insistentemente que eu acendesse a luz…

Agora pense numa pessoa extremamente cansada, vendo sua chance de dormir escapando entre os dedos. Eu não ia permitir isso! Precisava dormir para o bem de minha sanidade mental!

Uma raiva tão grande tomou conta de mim, eu estava disposta a defender minha noite de sono a qualquer custo!

Falei com voz bem rígida “Não vou acender a luz, fecha o olho e dorme, e tem mais: se você acordar sua irmã, vou ficar tão mas tão brava que você nem vai querer ver”, e ainda ameacei: “se continuar falando vai levar uma palmada!”.

Foi quando eu percebi o medo e terror do meu filho no ar, medo não do escuro mas de mim. Nunca batemos nele, sempre resolvemos tudo na base da conversa e negociação. E ali estava eu ameaçando bater no meu filho? Essa não sou eu, não é o tipo de mãe que quero ser.

Foi quando às 3 da manhã me lembrei do livro e do “minuto de raiva”. Eu tinha ali diante de mim duas opções: Podia gritar com meu filho, dar lhe um tapa e mandar que voltasse a dormir, o que provavelmente iria acontecer, uma hora ou outra ele iria adormecer pelo cansaço.

Ou eu podia aproveitar a situação para reforçar nossos laços de confiança e respeito.

Respirei fundo, cinco vezes bem profundo para me acalmar por completo.

Retomei meu tom de voz calmo e sereno e gentilmente perguntei por que ele estava com medo, ele me disse que estava muito escuro e ele não conseguia ver nada nem ninguém.

Nesse momento, eu disse a ele que estávamos nos três na cama, que o papai estava no outro quarto, estávamos na nossa casa, e que tudo estava bem, não tinha motivos para ele ter medo, ele estava seguro, rodeado das pessoas que o amavam. Depois sugeri que fechasse os olhos e segurasse minha mão. Ele assim o fez, e apertava tanto a minha mão que tive então, a noção de quão assustado ele estava. Aos poucos conforme o sono ia ficando mais profundo, ele soltava lentamente a minha mão até que quase as 4 da manhã a soltou completamente.

Não, eu não dormi bem. Continuo extremamente cansada, exausta para falar a verdade, mas muito feliz por ter oferecido o conforto e segurança que meu filho precisava numa noite complicada.

Orgulhosa de mim mesmo por ter conseguido controlar meu minuto de raiva e ter tirado o melhor proveito da situação. Mas o melhor de tudo é ter podido assegurar meu filho que eu me importo com os medos e dificuldades dele, que estarei sempre com ele, e que juntos vamos superar todos os obstáculos que certamente aparecerão pelo caminho.

Uma noite ou uma semana de noites mal dormidas e fácil de recuperar, já a confiança e respeito de um filho é algo bem mais complicado.

Sei que não é fácil, mas nunca deixe o cansaço ou a raiva assumir a sua identidade.

Respire fundo, profundo e repita quantas vezes for necessário até que tenha retomado o controle da situação, só depois decida que atitute tomar.

Um grande abraço,

Marcielly Azevedo

Photo by Gabriel Matula on Unsplash

Anúncios

Autor: Marcielly Azevedo

Mae do Vinicius e da Rebeca, esposa do Eder. Homeschooler, apaixonada por Educação Livre e Criação com Apego Ja morou no Brasil, Londres, atualmente em Portugal.

8 pensamentos

  1. Obrigada por este texto. Estamos todos exaustos, mudança chegando do UK, molares nascendo e uma criança sem dormir e papais tb! Além de mamar descontroladamente por causa do dente. Mas temos q lembrar que vale mais eles se sentirem seguros e confiantes na gente.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s