Um relato sobre parto domiciliar

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Dizem por aí que o tempo voa, e não é que num piscar de olhos já se passaram 7 meses do dia mais incrível da minha vida!

Era uma sexta-feira fria em Londres no fim de Fevereiro, eu acordei as 5 da manhã com cólicas, tipo de menstruação, mas com 39 semanas de gravidez isso já era bem normal, quando fui ao banheiro o tão famoso tampão saiu. É hoje! Minha filha vai nascer, eu tinha certeza!

Após uma cesárea totalmente desnecessária 6 anos atrás, dessa vez eu decidi que teria minha filha em casa, da forma mais natural possível.

Acordei meu marido e disse o que estava sentindo, ele perguntou se eu queria que ele enchesse a piscina, eu disse que não.

Estava tudo pronto desde a semana 37: o kit do hospital com materiais descartáveis, a piscina alugada já estava lá na sala montada há dias, porque queríamos que nosso filho mais velho se sentisse ambientado com toda aquela parafernália, minha bola de yoga, minha parede com frases de afirmações, versículos bíblicos e fotos de momentos especiais. Tudo pronto esperando a chegada da minha princesa. O tão sonhado dia chegou.

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Liguei antes das 6 da manhã para minha amada doula e disse que ela poderia vir com calma porque as contrações estavam evoluindo lentamente. Lembro que quando desliguei o telefone o meu marido me perguntou se as contrações eram tão fortes como diziam, eu disse a ele que não, que era tudo ficção de Hollywood!

Minha doula chegou por volta das 7 horas da manhã e me aconselhou a esperar um pouco mais para ligar para a midwife, eu só o fiz às 10 da manhã.  Na minha cabeça tudo estava evoluindo super bem, e eu estava na esperança de almoçar com a mais nova integrante da família! Mas, quando a midwife chegou às 11:30 ela me disse que estava tudo indo bem, evoluindo lentamente mas que ela iria voltar para o hospital e voltaria as 4 da tarde, se as contrações apertassem era para eu ligar imediatamente para ela.

Passamos o dia assim: meu marido, minha doula e  Vinicius se revezando nas massagens nas minhas costas, pés, pernas… Eu estava cansada, desde as 5 horas da manhã tendo contrações irregulares, lembro de ficar super conectada com minha filha, ouvindo músicas e dizendo para ela o quanto eu a amava e estava louca para conhecê-la. Estava tão concentrada cantando para minha bebê que não notei a midwife e a assistente na sala novamente. Foi quando eu pensei: Agora é a hora, tudo e todos estão aqui! Minha filha vai nascer a qualquer instante!

Eram 5 horas da tarde quando a midwife pediu para fazer um exame interno para passar para a próxima plantonista a que ponto estávamos, pois estava acabando o plantão dela.  Imaginei que a essa altura já devia estar uns 8 ou 9 centímetros dilatada, mas para minha surpresa quando ela examinou eu não estava nem 1 centímetro! Não pude acreditar no que estava ouvindo, só sabia chorar, de medo, de ansiedade, de decepção, de tudo que você imaginar, foi quando minha doula sabiamente veio com um prato de comida que ela mesma tinha cozinhado para mim e insistiu para que eu comesse um pouco, eu comi mais para não chorar do que por fome mesmo.  Foi quando de repente uma vontade enorme de fazer xixi, quando eu levantei ouvi literalmente um PLOC e a bolsa estourou… Minha midwife foi embora mas deixou toda equipe em alerta que minha Rebeca estava a caminho!

Das 5 horas até às 10 horas da noite nada muito conclusivamente, foi quando a midwife que entrou no plantão pediu para fazer um exame interno para ver a evolução da coisa, eu neguei porque sabia que estava evoluindo, ela insistiu e eu disse a ela que estava sentindo uma enorme vontade de empurrar, ela disse que não deixaria eu empurrar sem saber se estava na hora certa, eu disse a ela que meu corpo sabia que estava na hora certa, nos estávamos no quarto e eu pedi que ela chamasse minha doula Priscila. Quando a Pri entrou no quarto eu a abracei e disse que estava querendo empurrar e que precisava entrar na piscina. Quando tudo passou, ela me falou que quando entrou no quarto eu era outra, meu olhar era outro e ela soube pela expressão do meu olhar que eu estava em trabalho de parto ativo.

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Parto domiciliar na piscina
E estava mesmo… Eu gostaria de narrar os próximos acontecimentos de forma calma, serena e tranquila como aqueles partos divos que a gente vê no youtube, sabe? Mas não, no meu caso foi tudo tão primitivo, rústico, selvagem, ainda assim belo, intenso, real.

Pra falar a verdade eu não lembro de detalhes, pois estava tão entregue ao momento que não vi e senti mais nada além da minha filha. A dor? Eu me entreguei a ela, com felicidade, com prazer pois sabia que a cada contração estava mais perto de conhecer minha bebê. Meu marido conta que eu quase quebrei o braço dele, que nunca viu tanta força em alguém, aparentemente eu mordi minha doula, e quando a midwife sugeriu que eu fosse ao banheiro na hora de voltar para sala eu voltei de quatro tipo um cachorro, relatos do marido… Não vi meu filho na sala espiando o que estava acontecendo, também na expectativa de conhecer a irmã,  a única coisa que lembro é que quando eu estava na piscina a contração parecia mais fraca e eu ficava super relaxada, foi onde eu resolvi que não queria ficar na água, queria ir para terra firme.

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Fui para o chão meio que de cócoras sendo apoiada por meu marido que me abraçava e dava o suporte necessário para eu ficar confortável naquela posição. As contrações eram fortes mas algo inesperado aconteceu: os batimentos cardíacos da bebê estavam alterando, a midwife chamou a ambulância para ficar a disposição na porta de casa, o que eu não ouvi, estava concentrada, muito concentrada. Só lembro dela me chamar a consciência de volta ao mundo real e me disse: a bebê precisa nascer nas próximas contrações, ou eu vou ter que fazer um corte para facilitar a passagem, mas ela precisa nascer agora.

Eu respirei fundo, combinei com minha princesa que aquela era a hora! Quando a próxima contração veio eu tirei toda a força que tinha dentro de mim e so lembro da euforia das pessoas presentes na sala, a 1:47 da manhã de sábado  minha filha nasceu! Estava comigo!

Devido as circunstâncias dos momentos finais do parto, foi a midwife quem cortou o cordão umbilical e imediatamente após isso, minha princesa veio para meu colo, ela estava chorando mas quando eu a peguei em meus braços e comecei a cantar a música que cantei durante toda a gravidez, ela parou de chorar e uma paz invadiu nós duas, era nosso primeiro encontro mas ja estávamos conectadas ha muito tempo…

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Nessa hora voltei ao mundo real e vi que haviam paramédicos na sala, uns 6, a ambulância estava lá embaixo, mas graças a Deus tudo correu bem, não precisei de episiotomia, até a laceração que tive de 2 grau foi natural, feita pela bebê… Meu filho veio conhecer a irmã de perto, e eu juro que ela sorriu para ele!

Meu marido só sabia chorar, e no meu coração uma gratidão enorme e um orgulho que não cabia em mim. Sim, eu pari minha filha na sala da minha casa, contrariando toda uma cultura de “uma vez cesárea – sempre cesárea”, contrariando os médicos que insistiam em me convencer a ir para o hospital, mas eu segui com meu instinto, com o meu desejo de ter um parto natural, sem intervenção médica e eu sabia que minha maior chance seria em casa, ao lado de pessoas que eu amo, num ambiente familiar e preparado para o momento…

Tive que lutar para conseguir o apoio que eu queria do sistema de saúde da Inglaterra, foi tudo de graça, não paguei um centavo. A experiência valeu cada esforço, foi incrível e perfeita do jeito que foi! Não mudaria nada, não trocaria nada. Foi lindo, natural e emocionante.

No final, a midwife sugeriu que eu fosse para o hospital par fazer os pontos, uma vez que a ambulância já estava ali mesmo, eu fui e chegando lá,  por eu estar super esgotada me ofereceram o gás (um tipo de analgésico) enquanto eu levava os pontos, foi ai que eu dei o maior vexame, mas isso é assunto para outro texto…

A lição que eu aprendi com minha experiência de parto domiciliar é que a beleza está na naturalidade, a perfeição do nascimento de uma criança já é por si só um milagre, parir é natural, e nós fomos feitas para parir!

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Autor: Marcielly Azevedo

Mae do Vinicius e da Rebeca, esposa do Eder. Homeschooler, apaixonada por Educação Livre e Criação com Apego Ja morou no Brasil, Londres, atualmente em Portugal.

5 pensamentos

  1. Desde o dia que a conheci, vi que você é uma pessoa determinada e te admirei. Gosto de pessoas assim pois me identifico com elas. Gostei do seu relato e pode ter certeza de que faço parte da torcida para que tudo dê certo em sua vida. Amo você e sua linda família. Conte sempre comigo.

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